Espaço Literatura: Clarice Lispector

O que te guia? O que te salva nos momentos mais difíceis? Ontem eu estava andando para casa, e eu estava triste, um tipo de tristeza que me fazia ter uma certeza: eu tinha que ser forte para aguentá-la, porque uma hora ela ia passar. Acontece que era algo que eu não podia compartilhar, e não posso ainda, e não vou. De qualquer forma, o meu consolo nessas horas está em duas coisas: ler e dormir.

Peguei meu exemplar de Deusa do Mar, que estou lendo agora, abri na página marcada e li quase cem páginas. Fechei só quando meus olhos tavam fechando junto. Coloquei na cabeceira, me ajeitei na cama e dormi like an angel durante muitas horas. Acordei já eram nove quase dez. Coloquei música num volume alto, respondi e-mails e, depois, fui dar uma olhada na minha coleção de frases. Sim, eu tenho uma.

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Após o espaço aberto literatura que passou no Globo News sobre a Clarice Lispector, eu corri as páginas para chegar à página dela. Não sei quantas pessoas que dizem amar o que ela escreve realmente amam, ou entendem o quão profundo é. Não sei quem está na onda da modinha, e quem lê o que ela escreve e algo se aquece dentro de você. É um reconhecimento daquele sentimento, é sentir que você está sozinha, mas ao mesmo tempo não está, e que se alguém passou por aqueles sentimentos, você também pode.

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato… Ou toca, ou não toca.”

Malu Mader é uma dessas pessoas que, como eu, tem alguma coisa com Clarice. Ela, na entrevista, falou que cada vez que lia algo da escritora, se sentia um pouco diferente, porque cada vez que lia, aquilo adquiria um sentido diferente, dava respostas diferentes, um conforto não dado antes. Um professor meu de literatura me disse que a literatura que dura é aquela que depois de anos ainda responde as perguntas que são criadas.

“Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre.”

Eu acho que a literatura da Clarice é assim. É introspectiva, responde todo tipo de pergunta que a gente, ou pelo menos eu e a Malu Mader (haha), tenha. Eu não sei quem Clarice foi, sei que era diferente de muitas mulheres da época, que ela também tinha duas mãos e o sentimento de todo o mundo, que nem Carlos Drummond de Andrade. E são essas coisas que a tornam tão importante pra mim, tão longe do que metade do mundo chama de clichê.

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.”

Não. Ela foi muito mais que isso. Muito mais do que as palavras delas podiam explicar. Aquele era só o começo, e cada vez que eu leio, eu entendo um pouco mais. Acalmo um pouco mais. Quero conhecer um pouco mais. Clarice não é para qualquer um, mas certamente acalma meu coração em momentos como os de ontem. Assim como Caio Fernando Abreu – uma paixão mais recente – faz.

Não sei quantas pessoas tem a experiência de sentir isso. Espero que todas um dia tenham, porque é algo incrível, que está além da explicação.

“É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”

Camille Thomaz
Formada como Designer de Mídia Impressa pelo Instituto Infnet; colunista também no site Vá Ler um Livro, editora e colunista na Revista eletrônica Innovative. Seu maior vício são os livros. Escritora de "Imaginário Feminino" e do conto "de Pupa a Imago" no livro "Um Conto e '.'". Em uma palavra: intensa.

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