CineSophia: As três vivências de J.R.R. Tolkien em seus hobbits.

“Num buraco no chão vivia um hobbit.”

John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973) escreveu essa que seria a pedra fundamental de todo o seu vasto e fantástico universo. Lendo provas de alunos na universidade em que trabalhava, J. R. R. Tolkien se deparou com uma página em branco e repentinamente, teve a ideia de escrever a frase nessa folha. Isso ocorreu em 1928, nove anos antes da primeira publicação de “O Hobbit”.

Aquele foi o momento em que toda a bagagem cultural do autor, construída ao longo de anos de estudo, associada às suas experiências pessoais, tornaram-se referenciais para que ele pudesse moldar seus personagens, os lugares, as passagens, enfim, tudo o que conhecemos por sua obra, criando assim, uma autêntica mitologia que viria a se tornar influência para uma infinidade de outras sagas e histórias pelos anos que se seguiram.

Ainda que existam teorias e suposições sobre a origem da palavra “hobbit”, não há um precedente linguístico exato, levando a maioria dos estudiosos e pesquisadores a acreditar que o termo seja uma criação da mente brilhante do autor. Mesmo assim, podemos encontrar algumas bases para o termo, em que ele, notável linguista possa ter “se inspirado”, como o prefixo germânico “hob”, que significa, “pequeno”, e a expressão inglesa “hol-bytla”, que quer dizer “habitante do buraco”.

Mas a melhor influência para o termo “hobbit”, sendo aceita pela maior parte daqueles que se dedicam aos estudos de Tolkien, é a palavra “hábito” ou do termo em latim “habitu”. Por essa razão, um hobbit é visto como uma criatura de hábitos, que leva uma vida comum e simples, acomodada, no sentido de que não se preocupa com muitas coisas nesse mundo.

A descrição que o autor apresenta nos livros é de uma criatura baixa, por volta de 1,20 m de altura, com pelos no dorso dos pés, de grossas solas, o que faz com que eles não usem calçados. Vivem em uma área rural da Terra Média conhecida como “Condado”, em que cultivam plantações, criam animais, produzem cerveja e fumo, duas de suas maiores paixões.

Bilbo Bolseiro, personagem principal de “O Hobbit”, diz acerca de seu povo que eles gostam de comida, de cerveja e de fumar seu cachimbo de ervas. Gostam das coisas que nascem da terra, mas principalmente, de paz e sossego.

Essa criatura é uma alusão à própria infância de Tolkien, no Oeste inglês, junto à mãe e um irmão. Após a morte da mãe, as duas crianças passaram a ser cuidadas por um padre jesuíta, rendendo ao futuro escritor toda a sua bagagem cultural e religiosa (ele era católico fervoroso). Mas ao mesmo tempo, ele começaria a se distanciar daquele universo. Porém, antes disso, tinha-se início a primeira das três vivências de Tolkien na figura de seus hobbits.

Os hobbits Frodo, Sam, PIppim e Merrin na versão cinematográfica de “O Senhor dos Aneis”.

1ª vivência: A pureza do hobbit.

O hobbit puro, vivendo no Condado é uma criatura simples, quase infantil, que não teme o mundo à sua volta por simplesmente não querer se preocupar com o que está além dos campos verdejantes de sua terra. É um primeiro momento de Tolkien, que o molda para toda a sua vida, já que ele sempre se mostrou como uma pessoa de hábitos simples e que mesmo vivendo o mundo em mudança à sua volta, privilegiava pelo mínimo, mas necessário a todas as pessoas, a paz interior. Sua devoção ao catolicismo, na busca por essa paz por meio das palavras de Deus e seus símbolos é outra forma de entender a figura do hobbit, como um ser dedicado ao seu próprio universo de vida em essência e existência, o mais longe possível das maledicências e do pecado.

Um ser desprovido de malícia, ao menos em seu mundo fechado e simples, é o que o hobbit representa aos olhos dos demais seres da Terra Média, geralmente, envolvidos em conflitos por poder e combates entre o bem e o mal. Por serem tão distantes dessa relação, os hobbits são pela maioria dos habitantes da Terra Média, seres desprovidos de valor ou significado. Numa terra de guerreiros e seres dotados de grandes poderes, pequenos camponeses pouco ou nada têm a oferecer.

Contudo, o ser mais fraco e insignificante é justamente aquele que detém o dom ou a esperança de salvar todo o mundo, justamente, por ter que entrar num universo de situações que não faziam parte de sua existência, mas como a maioria dos seres, é jogada em seus braços. Tolkien faz do hobbit o “herói improvável”, aquele que não demonstra poder ou valores adequados a um guerreiro, mas que apresenta sua força quando mais se precisa. É a segunda imagem que Tolkien faz de si mesmo na sua maior criação.

O Condado, lar dos hobbits, representa a vida tranquila e despreocupada desse povo.

2ª vivência: O hobbit diante da guerra.

Os hobbits devem sair de seu mundo tranquilo para enfrentar os desafios da Terra Média, sobretudo, os mais penosos e sangrentos, em benefício da salvação de todos. É fazer com que a sua vida seja instrumento para a salvação de muitas outras, ainda que a forma como isso se dê seja a mais traumatizante possível.

Durante a Batalha de Somme, em 1916, que durou de julho a novembro, o Segundo Tenente Tolkien lutou nas trincheiras francesas e viu muitos amigos e companheiros morrerem na guerra. Depois de ser acometido por tifo, voltou para casa e passou longos meses em recuperação, depois de um ano servindo ao exército. Jamais se recuperou das feridas internas que conseguiu no campo de batalha.

Essa experiência foi relatada em “O Hobbit” na batalha dos cinco exércitos pelo tesouro de Smaug e em “O Senhor dos Aneis” na passagem pelos pântanos pútridos, cobertos de cadáveres. Os hobbits são obrigados a ver os horrores da guerra e com isso, se contaminam pelo que veem, além do sangue e morte ao redor.

Tolkien via a guerra como a pior das tragédias que poderiam acometer um ser humano, pois nelas, povos inteiros e suas culturas eram massacrados em pouco tempo, sempre por motivos torpes travestidos no desejo de dominar dos mais fortes. Quando um personagem como um hobbit entra em batalha, por mais que tenha em seu espírito a vontade de alcançar um objetivo, mesmo que seja sua própria salvação, ou que esteja amparado por um batalhão de guerreiros e elfos, não consegue vencer a batalha contra o mal que a guerra traz.

Mesmo vencendo o mal no final de “O Senhor dos Aneis”, Frodo Bolseiro não consegue se livrar de tudo o que viu e sentiu ao longo do caminho. Ele jamais foi o mesmo depois da jornada que travou. É a imagem que o autor faz de si mesmo, como alguém que não queria estar na guerra e que nela foi lançado, tendo que levar consigo mesmo os dramas por toda a sua vida, e isso, obviamente se reflete em sua obra.

Bilbo Bolseiro, aqui vivido por Martin Freeman, é um hobbit que deixa sua vida tranquila no Condado para enfrentar as batalhas na Terra Média.

3ª vivência: Hobbit diante do mundo em transformação.

Além da dor da jornada, Frodo volta para casa, ao final da história, como o herói fraco, que não consegue salvar o mundo, e que após isso, vê o Condado dominado e destruído pela tecnologia e pela industrialização. É a terceira referência que Tolkien faz de si mesmo na obra.

Tolkien se mostrava avesso às tecnologias, por defender uma visão de vida nostálgica e simples, como os seus personagens mais célebres. Ele acreditava que o domínio pela tecnologia influenciava o ser humano negativamente, mesmo que a tecnologia fosse usada para o bem. Ela desumaniza o ser humano, lhe trazendo sofrimento e mazelas. A guerra é a principal figura para representar o mal advindo da tecnologia. Os anéis do poder, por exemplo, são artefatos usados para guiar povos, ou seja, instrumentos criados para auxiliar as pessoas, mas que na verdade, representam o poder de uns poucos sobre a maioria.

Este é o fim temido por Tolkien para toda a vida camponesa na Inglaterra. O desejo humano de dominar, de corromper e a fraqueza em ser corrompido representam a tristeza e os traumas vividos pelo escritor, sobretudo, em relação à Primeira Guerra Mundial e às mudanças ocorridas em sua sociedade. O poder é algo que transforma todo e qualquer um, mesmo o mais puro dos seres.

Diante de tudo isso, pode-se concluir que um hobbit é um homem que de escolha própria quer seguir o seu próprio caminho, sem atrapalhar ou incomodar ninguém, mas que infelizmente, não está alheio às barbaridades e atrocidades disseminadas no mundo pelas próprias pessoas. Por mais que ele viva alheio a tudo e construa a sua própria história, mais cedo ou mais tarde, ele será encontrado e inserido na trágica existência humana.

Tolkien é o hobbit nas páginas de sua obra. E seus hobbits são o que ele mais queria ser e o que menos desejava que as pessoas se tornassem. Suas três vivências, discutidas aqui representam experiências autênticas de um homem que transformou dramas pessoais numa das mais incríveis histórias de todos os tempos.

J.R.R. Tolkien mostrou em sua obra partes importantes de sua própria vida.

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