banner top 11 Semana Total Recall   Crítica   Total Recall (1990)

Do Michaelis:
total recall capacidade de lembrar nos mínimos detalhes

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Senta que lá vem história

Foi uma experiência muita estranha rever O Vingador do Futuro depois de 20 anos da primeira (e única) assistida. Para explicar o porquê, vou ter que voltar ao já longínquo ano de 1990. Naquele tempo, vivíamos a overdose de machol da Hollywood de Reagan. Era a época dos heróis trogloditas, brucutus e semelhantes. Era a época de Stallone e Schwarzenegger.

Os dois astros dominaram os anos 80, estrelando filmes clássicos e essenciais (Rocky, Predador, Exterminador do Futuro, Rambo) e outros de qualidade duvidosa, especialmente quando ambos se associaram à picaretíssima produtora Cannon. Mas tudo tem seu ciclo de vida e a onda dos machões indestrutíveis – que na verdade já existiam nos filmes B de ação e westerns dos anos 50 e faziam a alegria das crianças em matinês – no final da década já dava sinais de que estava em declínio. Filmes como Máquina Mortífera e Duro de Matar apresentavam um novo tipo de protagonista, perturbado tanto psicologicamente quanto fisicamente. Martin Riggs era um pirado que não tinha superado a morte da esposa, chegando ao cúmulo de, na segunda cena em que aparece, cogitar a hipótese de explodir os próprios miolos. John McClane por várias vezes não sabia o que fazer para combater os terroristas na Nakatomi Tower, chegando a se estapear e sentir medo. Situações até então impensáveis em se tratando de heróis de ação.

Tendo em vista esse quadro, os dois maiores astros do cinema daquele momento decidiram diversificar suas carreiras e também a percepção que o público tinha deles. Stallone, melhor ator, porém mais mercenário, acabou entrando em barcas furadas ao longo dos anos, como Pare Senão Mamãe Atira!, o injustiçado Tango & Cash e Alta Velocidade, que acabaram por quase jogar sua carreira cinematográfica na lata do lixo, apenas voltando a se recobrar com a “lição de vida” Rocky Balboa.

Já Schwarzenegger, embora fraco em termos de atuação e com um carregadíssimo sotaque, tinha a seu favor o fato de ser extremamente carismático – a câmera “gosta” dele -, além de inteligência para gerenciar os rumos de sua vida profissional. Logo de cara, ele estrelou Irmãos Gêmeos e Um Tira no Jardim de Infância, duas comédias dirigidas por Ivan Reitman, de Os Caça-Fantasmas. O grandalhão sabia tirar sarro de si mesmo.

Com esse contexto, em uma das minhas idas ao cinema naquele ano de 90 – acho que o filme era As Tartarugas Ninja -, me deparo com um trailer muito estranho, seres deformados, uma paisagem vermelha e o Schwarzza pulando e atirando pra tudo que é lado. Total Recall – O Vingador do Futuro. Vejo o nome do diretor. Paul Verhoeven. O mesmo doente, como citei no FGCast 6, que dirigiu Conquista Sangrenta e Robocop.

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Arnold e seu trabuco: a relação mais estável que teve em toda a sua vida

Procurei saber mais sobre o filme. Na época, sem internet, restava-me a Set e a Video News. Li, olhei… e ignorei solenemente. O trailer soava muito confuso, a trama idem.

Em 3 de outubro, o filme estreia, com direito a anúncio de página inteira no caderno de variedades da Folha da Tarde (tenho até hoje recortados vários desses anúncios, incluindo O Vingador do Futuro). E não é que a disgrama faz 200 milhões de dólares? Para a época, uma grana indecente. Mesmo assim, não fui ao cinema, deixei para assistir quando saísse em vídeo.

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Anúncio na FT de 03/10/1990: atenção para o erro gramatical na tagline do filme!

Meses depois, finalmente assisti. E aconteceu o que eu esperava. O filme não me pegou. Tudo muito chato, muito besta – à exceção dos impressionantes efeitos especiais. A cabeça da gorda dando pau, saindo em pedaços para revelar um Schwarzenegger mau-encarado é marcante.

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A cena mais badass do filme inteiro!

Porém, o conjunto da obra não me agradou. As cenas de ação remetiam a Robocop e Comando para Matar (este, diversão acerebrada elevada a status de arte), sem impacto ou diversão equivalentes. Em suma, um filme médio, que nunca me interessou nesses 20 anos em rever.

Com um remake prestes a estrear, obviamente O Vingador do Futuro virou pauta aqui no Filmes & Games. E com isso, acabei assistindo novamente, na esperança de que o tempo e a maturidade me fizesse ver a fita com outros olhos. O estranho foi que, embora realmente eu tenha visto várias qualidades que me passaram despercebidas, outros problemas também se revelaram. No fim, minha impressão original se manteve.

O roteiro, em termos de trama bem amarradinho, conta a história de um trabalhador de construção civil que tem sonhos estranhos com Marte. Estamos no futuro e o planeta foi colonizado visando a extração de minérios apenas lá encontrados. Além disso, a paisagem única se transformou em ponto turístico, com resorts exclusivos e caros. Em Marte também está ocorrendo uma série de levantes da população contra o administrador local.

O jeito de se tirar férias também se modificou. A empresa Rekall realiza implantes de memória que simulam o passeio pelos locais desejados de forma a parecer sua própria lembrança. Inspirado por seus sonhos com Marte, Douglas Quaid, o personagem de Schwarzenegger, decide fazer um implante de viagem ao planeta vermelho. O problema começa quando ele surta no momento em que ia passar pelo processo, berrando que alguém está vindo matá-lo. Funcionários da firma alegam que ele já havia recebido um implante de memória e o stress do momento rompeu o condicionamento.

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“Ui, como dói!”

A partir daí, Quaid começa a ser perseguido pelos seus próprios amigos (e também pela esposa, uma novinha Sharon Stone, pré-Instinto Selvagem). Na luta para salvar a própria pele, ele vai trucidando quase todo mundo que cruza seu caminho, enquanto é contatado por pessoas misteriosas com mensagens que ele próprio, antes de ter sua memória apagada, deixou para si.

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Uma pequena pausa entre um tiro e outro para limpar o salão

Esse é o ponto mais interessante do filme, a busca pela própria identidade, quem sou eu realmente. Aliás, o mesmo conflito pelo qual passa o protagonista de Robocop. Visto dessa forma, é uma jogada ambiciosa de Verhoeven, utilizando-se do conceito estrutural do blockbuster de ação para realizar questionamentos de ordem existenciais. Questionamentos que também são o cerne da boa ficção científica.

Infelizmente as boas intenções não são suficientes para erguer o filme além do nível massavéio/Domingo Maior. As cenas de ação, e também o gore habitual do diretor, são enfatizados de um modo absurdo e caricato, como se fossem retirados do já citado Comando para Matar. Porém, o que funciona no filme de 85 acaba por transformar O Vingador do Futuro em um Frankenstein, o que deixa claro que existiam duas forças contrárias em sua produção, Verhoeven e Schwarzenegger (os produtores Mario Kassar e Andrew Vajna, os mesmos de Exterminador do Futuro, garantiram ao austríaco controle total se ele se comprometesse a estrelar a sequencia do clássico de James Cameron).

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Verhoeven e Schwarzza: o amor é lindo!

Entendam, embora Schwarzenegger soubesse que precisava expandir seus horizontes em termos de projetos, ele sabia que esses mesmos horizontes tinham limites. Sua capacidade de atuação era um deles (a cena de paródia de Hamlet em O Último Grande Herói mostra como ele tem consciência disso e como é esperto o suficiente para transformar essa deficiência em trunfo). Outro problema para o ator estava no fato de que, sendo um chamariz de público, possuía uma persona cinematográfica específica. Realizar um filme com questões, digamos, filosóficas demais poderia ser interpretado como uma espécie de traição.

Isso também explica a série de diretores que passaram pelo projeto, o mais notável deles David Cronemberg, que idealizou os mutantes que aparecem durante o filme – e que são a cara dele.

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Um rostinho que só uma mãe ou o Cronemberg podem amar.

Sendo assim, o que poderia ter sido muito mais significativo e interessante, acaba se tornando um veículo para Arnold, diferente o suficiente para oferecer algo novo à plateia, mas ao mesmo tempo seguro e confortável para sua base de fãs.

É claro que, em 1990, um filme que acaba rendendo quatro vezes mais do que custou é um mega sucesso (hoje, não mais) e se torna influência muito forte no gênero. Vários detalhes acabaram sendo reaproveitados por diversos outros filmes de ficção científica (a pílula de Matrix, por exemplo). A trilha sonora do mestre Jerry Goldsmith foi inovadora ao casar o uso de orquestra e sintetizador, antecipando em dez anos a música de John Williams para AI.

A revisão serviu também para me lembrar de pequenos detalhes que não deveriam, mas me irritam demais. Um deles, a edição datada e bisonha. A cena de Schwarzenegger tomando um chute nas partes baixas é a primeira que vem à cabeça. Aliás, nosso bom e velho Arnold se supera no quesito vergonha alheia. Não bastando a hilária (quando deveria ser dramática) cena dele sofrendo descompressão no vácuo de Marte, também somos brindados com a antológica risada de Quaid frente a seus inimigos.

Ao final do filme, obviamente o herói mata os bandidos, conquista a mocinha e salva o planeta. Ou não. Para muitos fãs, tudo isso é o implante de memória da Rekall. Mas se for mesmo, como então o filme tem cenas SEM a presença de Schwarzenegger? O implante, além de agente secreto, o transformou em telepata?

O que temos é uma obra bem-sucedida em termos financeiros e para amantes de filmes de ação massavéio, mas que poderia ter sido muito mais do que é, até por ser baseada em um conto de Philip K. Dick, papa da ficção científica.

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Mindblowing…

O Vingador do Futuro
(Total Recall, 1990)
D: Paul Verhoeven
E: Arnold Schwarzenegger, Rachel Ticotin e Sharon Stone
Nota: 5,0

 

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