Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu – 2ª Parte – [Tem que Ver Isso Aí!]

Em tese, esse filme não deveria estar nessa coluna. A bem da verdade, eu deveria considerar a obra um pega-trouxa mediano, feito apenas pra ganhar uns cobres em cima da fama do filme original. Afinal, essa sequência é exatamente isso.

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Após o tremendo sucesso de Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!, o estúdio Paramount exigiu do trio ZAZ (Jerry Zucker, Jim Abrahams e David Zucker) uma continuação da comédia de 1980.

Para os diretores/roteiristas, a proposta era quase um acinte, pois onde estaria a originalidade em se repetir a mesma situação com as mesmas pessoas (John McClane que o diga)? O que agravava ainda mais a situação era de que a obra anterior nada mais era do que a refilmagem de um melodrama aéreo dos anos 50, incluindo a repetição das mesmas falas, porém com um tom satírico, demonstrando o absurdo da história contada, e gags visuais.

Após se debruçarem sobre o projeto e quebrarem a cabeça imaginando formas de viabilizar o retorno dos personagens, os cineastas comunicaram ao estúdio que estavam desistindo da sequência, na vã esperança de que a Paramount também pulasse fora.

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Ledo engano. Mesmo sob protestos dos criadores, a empreitada foi em frente, com vários dos atores originais retornando a seus papéis (um dos poucos a recusar a oportunidade foi Leslie Nielsen, envolvido à época, junto com os Zuckers e Abrahams, na criação da série de TV Police Squad, que anos depois originou a cinessérie Corra Que a Polícia Vem Aí!).

A equipe de produção, então, executou o que já se tornou o padrão em se tratando de sequências: basicamente o mesmo filme, para conforto do público espectador médio, apenas com os riscos mais elevados. Em suma, sai o vôo de LA para Chicago e entra o primeiro vôo da Terra para uma colônia lunar, situando dessa forma a trama em um fictício futuro próximo (para a época).

Outro fator preocupante ocasionado pela saída dos criadores foi a falta de cuidado com os valores de produção. Com um diretor, Ken Finkleman, trabalhando sob as draconianas regras impostas pelo estúdio e que via o projeto apenas como mais um trabalho, isso significou um barateamento de elementos como fotografia e cenários que, bem trabalhados pelo trio ZAZ, davam uma certa sofisticação ao filme anterior. Agora, basicamente tínhamos iluminação e sets semelhantes a sitcoms.

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Sendo assim, Apertem os Cintos… 2 teria tudo para ser uma pálida recauchutagem, uma armação salafrária e sem graça para tomar nosso dinheiro.

O problema é que esse filme pode ser tudo, menos sem graça. As situações são as mesmas? Sim – e os próprios personagens em determinado momento fazem graça disso, em uma clara brincadeira meta. E o mesmo vale para a iluminação e cenários (basicamente todas as cenas passadas na sala de comando lunar). Aparentemente, Finkleman decidiu fazer uma limonada do limão.

Não apenas isso: a adição de William Shatner e sua canastrice habitual, utilizada a favor do filme, ajuda a diminuir a falta que sentimos de Robert Stack e Leslie Nielsen. Fora que as gags visuais estão ali. E as piadas de duplo sentido também. A cena do hospício, logo no início, é um bom exemplo, com a participação especial de John Vernom (o reitor Wormer de Clube dos Cafajestes). Também é interessante a participação de figurinhas carimbadas como Rip Torn, Raymond Burr e Sonny Bono, este no papel de um suicida impotente e muito, muito burro.

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Mesmo assim, sempre estranhei o fato de gostar desse filme de maneira incondicional. Sim, as piadas estavam no mesmo nível do primeiro e acabam por suplantar todos os deméritos da produção (regra número 1 da comédia). Mas o que me intrigava era por que cargas d’água elas eram tão boas. Afinal, Finkleman despontou para o anonimato.

Até que em uma recente revisão do filme, entendi porque.

Ao final, aparece um agradecimento na tela a Al Jean e Mike Reiss, nomes conhecidos para quem é fã de Os Simpsons, parte do boiler room de escritores da série.

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Basicamente, Jean e Reiss escreveram todo o draft final do roteiro, acrescentando piadas e cunhando para eles reconhecimento dentro da indústria, o que levou a ambos integrarem o staff da criação de Matt Groening sete anos depois.

Com essa informação, tudo passou a fazer sentido, pois as gags e piadas tem tanto a ver com as demências vividas por Ted Stryker e cia. quanto pelos habitantes de Springfield.

Tudo certo com o universo, então.

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Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu – 2a. Parte
(Airplane Part II – The Sequel, 1982)
D: Ken Finkleman
E: Robert Hays, Julie Hagerty e William Shatner

Nota do Autor: 9
Nota do público:(8 votos) 8.8
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Marcelo Paradella
Publicitário, redator e cineasta (quer dizer, no momento tenta escrever, produzir, dirigir e editar um curta pra concluir seu curso). Acredita piamente na Hipótese do Universo de Tommy Westphall, que Nós Vamos Invadir Sua Praia e Armação Ilimitada são os pontos altos da cultura jovem brasileira e que um apocalipse zumbi é inevitável.

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