Georges Méliès: o começo de tudo [Pop Cine]

Janeiro já está acabando, mas não deixa de ser o primeiro mês do ano. E este novo começo nos faz pensar em outros inícios. Por isso nada melhor que olhar para trás e descobrirmos um pouco mais sobre os primeiros tempos do cinema. Aliás, se você adora ver um bom filme em uma sala aconchegante com pipoca amanteigada, há um homem que você deveria agradecer: o francês Georges Méliès.

Sem ele não haveria o cinema como o conhecemos. Obviamente, mais cedo ou mais tarde alguém imaginaria que o aparelho dos irmãos Lumière servia para contar histórias, e não apenas filmar cenas cotidianas. Mas a ficção científica, a edição, a montagem e os efeitos especiais não seriam os mesmos.

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Marie-Georges-Jean Méliès nasceu em Paris em 1861. Vindo de uma família rica, ele teve educação formal e elitizada, ao contrário de muitos futuros magnatas do cinema. Sempre criativo, ele se interessou por mágica na juventude e, ao comprar um teatro em 1888, pôde se dedicar ao seu sonho de ser ilusionista em tempo integral. Isso, contudo, não lhe trouxe muito sucesso.

Testemunha ocular da primeira exibição pública do cinematógrafo, Méliès ficou tão empolgado que construiu sua própria câmera/projetor. De 1896 até 1913, ele fez 531 filmes. Sua grande inovação, a edição, surgiu por acidente, quando a câmera parou de rodar e voltou a funcionar momentos depois, captando uma cena totalmente diferente. A partir daí, passou a usar truques de mágica e a diversificar seus temas: ele foi o primeiro a se aventurar pelos contos de fada, pelo terror e pelo cinema cristão e histórico, filmando curtas sobre Joana D’Arc e Jesus Cristo ainda em 1900.

Há dois anos, o interesse em Méliès e seu trabalho ressuscitou graças ao trabalho de Martin Scorsese, ele próprio um cinéfilo assumido, que adaptou o livro “A invenção de Hugo Cabret” para o cinema. Na história, o jovem Hugo (Asa Butterfield) conhece o cineasta, já aposentado e trabalhando em uma loja no metrô de Paris, através do desenho feito por um autômato. O ator Ben Kingsley, camaleônico em suas interpretações, dá vida a Méliès. E sua caracterização é perfeita.

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Sem dúvida a obra mais importante e conhecida de Méliès é “Viagem à Lua”, de 1902, uma livre adaptação de uma história de Júlio Verne. Todos nós já nos deparamos, propositalmente ou sem querer, com a imagem icônica da nave que colide com o olho da Lua. Este filme, assim como muitos do cineasta, teve algumas de suas cópias caprichosamente pintadas à mão. Ele abre o livro “1001 filmes que você deveria ver antes de morrer”, um best-seller internacional, e está em domínio público.

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Mas a carreira de Méliès não foi feita só de sucessos, como nosso amigo Hugo foi capaz de perceber. Nos Estados Unidos, graças a um truste (reunião de empresas de um mesmo setor) comandado por Thomas Edison, as exibições dos filmes vindos de fora não davam lucro. Ou melhor, davam para Edison, que pirateava as cópias da Europa. Méliès lutou a todo custo contra esse monopólio, mas, desiludido, se aposentou em 1913, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, que traria uma escassez de película à França.

Surpreendente faz-tudo, Méliès produzia, dirigia e atuava em quase todos os seus filmes. Não é à toa que ele recebeu muitas homenagens após sua redescoberta pelos cinéfilos em 1929. Após sua morte, em 1938, as honrarias continuaram chegando através de inúmeras menções na cultura pop, letras de música, clipes de Katy Perry e The Smashing Pumpkins, produtos diversos… “A invenção de Hugo Cabret”, aliás, não é o único filme a homenagear o cineasta: em 1952 um curta biográfico foi feito com o filho de Méliès como protagonista, e em 1956 a introdução de “A volta ao mundo em 80 dias” usou partes de “Viagem à Lua”.

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A maioria de seus filmes é bem curtinho (menos de 10 minutos) e pode ser vista online. Por isso, delicie-se, e saiba que você está na frente do trabalho de um dos mais apaixonados inovadores dos últimos séculos.

Leticia Magalhães
Letícia Magalhães é estudante universitária e tem dois livros publicados. Atualmente mantém o blog Crítica Retro, sobre cinema clássico, e colabora também nos sites Leia Literatura, Antes que Ordinárias, Red Apple Pin-Ups e Gene Kelly Fans.

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