Trono Manchado de Sangue – [Tem que Ver Isso Aí!]

Como já comentado na crítica de Ran, Akira Kurosawa foi um diretor que não apenas estudou a fundo William Shakespeare, como também um dos mais bem-sucedidos artistas a adaptar as peças do Bardo.

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Em Trono Machado de Sangue, o cineasta transpõe Macbeth das charnecas escocesas para o Japão feudal, contando a história de um comandante samurai que após se encontrar com espíritos em uma floresta e guiado por sua ambiciosa esposa mata um senhor para tomar o seu lugar, desencadeando uma sangrenta luta por poder.

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Vale lembrar que no meio teatral Macbeth é considerada amaldiçoada: reza a lenda que toda companhia que tenta encená-la passa por algum revés, de forma que os envolvidos apenas se referem a ela como “a peça escocesa”. É também de considerar o fato de que é uma das tragédias mais sanguinolentas, cruéis e insanas de Shakespeare. Até mesmo os cavalos ficam malucos e se matam, comendo uns aos outros.

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Filmado em preto e branco – e aproveitando o cenário natural do Monte Fuji -, a obra também é um tratado sobre loucura e culpa, mostrando como paulatinamente tanto Washizu (vivido pelo ator mais associado com Kurosawa, Toshirô Mifune) quanto sua mulher vão perdendo a razão conforme os fantasmas de seus pecados tornam-se presença constante.

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Kurosawa extrai de Mifune uma de suas melhores atuações – tendo feito o mesmo em Sete Samurais e Rashomon – e conduz de forma impactante o clímax onde uma legião de soldados tenta atingir com flechas o protagonista. Mais impressionante ainda é o fato de que as flechas que atingem as paredes próximas de Mifune serem reais e pontiagudas, uma escolha conjunta de ambos para que o ator conseguisse expressões reais de medo.

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Outro grande ponto do filme é o design meticuloso dos cenários. Inicialmente o diretor imaginou apenas uma fachada aos pés do Monte Fuji. Porém, acabou construindo praticamente um castelo inteiro, com a ajuda de militares de uma base americana localizada na região.

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Trono Manchado de Sangue
(Kumonosu-jô, 1957)
D: Akira Kurosawa
E: Toshirô Mifune, Isuzu Yamada e Takashi Shimura

Nota do Autor: 9
Nota do público:(4 votos) 9.3
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Marcelo Paradella
Publicitário, redator e cineasta (quer dizer, no momento tenta escrever, produzir, dirigir e editar um curta pra concluir seu curso). Acredita piamente na Hipótese do Universo de Tommy Westphall, que Nós Vamos Invadir Sua Praia e Armação Ilimitada são os pontos altos da cultura jovem brasileira e que um apocalipse zumbi é inevitável.

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