Heróis de Ressaca – [Tem que Ver Isso Aí!]

Já andei por aí falando muito bem de Edgar Wright, diretor/roteirista que ganhou destaque com a série Spaced e depois estreou no cinema com Todo Mundo Quase Morto.

Seus filmes seguintes, Chumbo Grosso e Scott Pilgrim contra o Mundo, mostraram que ele não era apenas um “one hit wonder”. Ao contrário, além de exibirem visão e técnica que muitos veteranos não possuem, são obras divertidíssimas.

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Eis que, depois de um hiato de três anos (em que ele acabou colaborando com o roteiro de As Aventuras de Tintin e se enrolando com a Marvel para desenvolver o filme do Homem-Formiga), Wright retorna com Heróis de Ressaca, nome que a distribuidora nacional conferiu para The World’s End.

Curioso para ver o que o diretor inglês aprontou dessa vez, embora temeroso de que ele poderia ter perdido a mão, assisti a parte final da informalmente chamada “Trilogia do Cornetto”, denominação dada pelo fato de seus três filmes co-escritos com Pegg apresentarem alguma citação a um sabor do sorvete.

Com toda a certeza, é o pior filme que ele dirigiu.

Por outro lado, lá vou eu falar bem de Edgar Wright de novo.

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A história aqui apresenta Gary King – o co-roteirista e comparsa habitual do diretor, Simon Pegg, num papel bem diferente dos que costuma fazer -, um homem que, aos 40 anos, ainda se comporta como se tivesse 17. Apegado ao passado, esse Peter Pan contemporâneo só pensa em beber, brigar, transar e escutar os mais “recentes” hits da Madchester de 90.

Ah, sim, e também reunir os velhos amigos de colegial para finalmente completarem um pub crawl que falharam em 1990, algo que para o personagem é uma mancha no currículo.

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Desvairado, inconsequente, egocêntrico e irritante, King acaba conseguindo convencer seus outrora companheiros (vividos por Martin Freeman, de O Hobbit e Sherlock, Eddie Marsan, de 21 Gramas, Paddy Considine, de A Festa Nunca Termina, e Nick Frost, também companheiro de Wright e Pegg em Spaced, Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso) a encarar o desafio, muito mais pela desistência dos outros em argumentar com um bêbado do que por sua eloquência.

A viagem de volta à cidade natal inicialmente parece ser uma chatice sem fim, mas algo estranho se esconde no local. Antes uma típica cidadezinha do interior da Inglaterra, agora ela parece ser uma típica cidade padronizada e uniforme que vemos assolando diversos pontos do planeta.

Seria uma conspiração? E até onde ela iria? Quem poderia estar envolvido? O QUÊ poderia estar envolvido? E quais as repercussões disso para os protagonistas e para o mundo?

Falar mais seria estragar boa parte da diversão. Apenas vale citar que o gênero aqui focado é a ficção científica, especialmente a setentista, como Westworld – Onde Ninguém tem Alma, As Esposas de Stepford, Fuga no Século 23, No Mundo de 2020 e Invasores de Corpos. Influências de Doctor Who (tanto da série clássica como da atual) podem ser sentidas no DNA do filme.

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Mas, acima de tudo, esta deve ser a obra mais pessoal de Wright, onde ele possui algo muito mais sério a comentar sobre os dias atuais. O clímax, onde mentes inteligentes tentam argumentar com bêbados, expõe uma crítica à padronização da sociedade, ao comportamento politicamente correto apenas para se enquadrar no mundo e à dependência da tecnologia. Também é uma crítica à parte de uma geração que permitiu que tudo isso ocorresse ao se recusar a crescer e agir como “homens-crianças” inconsequentes, embora ao mesmo tempo, em especial no último take, seja uma carta de amor a essas mesmas pessoas.

Ao terminar a sessão, pude notar que Wright, como diretor, manteve seu olhar atento para atuações, enquadramentos e direção de arte (o filme é repleto de gags e easter eggs que refletem os beats da história, em especial, os nomes dos bares).

Porém, é como roteirista que ele se mostra extremamente humano, abraçando todas as incongruências e conflitos de seus personagens, tornando-os divertida e dolorosamente reais.

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Heróis de Ressaca
(The World’s End, 2013)
D: Edgar Wright
E: Simon Pegg, Nick Frost e Martin Freeman

 

Nota do Autor: 9
Nota do público:(5 votos) 8.8
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Marcelo Paradella
Publicitário, redator e cineasta (quer dizer, no momento tenta escrever, produzir, dirigir e editar um curta pra concluir seu curso). Acredita piamente na Hipótese do Universo de Tommy Westphall, que Nós Vamos Invadir Sua Praia e Armação Ilimitada são os pontos altos da cultura jovem brasileira e que um apocalipse zumbi é inevitável.

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