O Espadachim de Carvão [Leitor Nerd]

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Kurgala é um mundo abandonado por Quatro Deuses. Adapak é filho de um deles. E agora ele está sendo caçado. Perseguido por um misterioso grupo de assassinos, o jovem de pele cor de carvão se vê obrigado a deixar a ilha sagrada onde cresceu e desbravar um mundo hostil e repleto de criaturas exóticas. Munido de uma sabedoria ímpar, mas dotado de uma inocência rara, ele agora precisará colocar em prática todo o conhecimento que adquiriu em seu isolamento para descobrir quem são seus inimigos… Mesmo que isso possa comprometer alguns dos segredos mais antigos de Kurgala.

Affonso Solano é autor da série de livros Espadachim de Carvão, coordenador do gênero de fantasia da editora Leya, colunista do site Omelete e cocriador do site Matando Robôs Gigantes. Realiza palestras sobre literatura em todo o país, além de participar frequentemente dos 3 maiores podcasts e videocasts do Brasil: Jovem Nerd, MRG e Rapaduracast – que juntos alcançam mais de um milhão de ouvintes semanalmente.

A narrativa d’O Espadachim de Carvão intercala entre sua juventude com seu pai e seus tutores – quando ele aprendia a lutar, lia sobre Kurgala e ousava fugir para um pouco mais longe quando seu pai não estava por perto – e sua idade adulta – caçado e isolado num mundo que ele só conhecia na teoria. As cenas de ação são frequentes, dando um ritmo acelerado e interativo. Numa página, você conhece uma nova cidade com suas novas cores e peculiaridades, na outra, Adapak se vê forçado a fugir pelos telhados para não ser emboscado por adversários enigmáticos.

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Falando em cores e peculiaridades, Kurgala é um cenário único. Nada de elfos e orcs, aqui, cada raça é original em formato e comportamento, como os gisbanianos, os “cabeças de arco”, os ïnannarianos, com seus pontos alinhados pelo corpo e seu odor literalmente encantador, ou os ushariani, raça com três braços e três pernas. A tecnologia é limitada e a superstição é alta, como em mundos medievais, contudo cada reino tem a sua personalidade, seja uma cidade bem organizada com fortes leis de fiscalização, seja uma cidade costeira empesteada de bucaneiros e gatunos, onde cada um é responsável pela própria segurança. E, na contramão da maioria dos livros de fantasia contemporâneos, a magia não é frequente e nem aceita e aqueles que brincam com seus segredos são temidos como bruxos maculados.

E nesse mundo fértil, não há como os personagens não serem diversificados. Adapak guia a história enquanto tenta descobrir por que está sendo caçado, um guerreiro que só não morreu pela sua inocência e altruísmo graças à sua técnica de combate inigualável, sendo impossível não se afeiçoar a ele. Seus dois tutores são Barutir, um humano erudito que se deixa levar pelo ressentimento quando não tem seu único desejo desesperado atendido pelo pai de Adapak, e Telalec, um formidável ushariani que ensinou seu estilo de luta ao herói, um guerreiro com cicatrizes demais para ver qualquer otimismo no mundo. Não dá para citar todos os personagens legais, senão o texto ficaria gigante, mas eu faço questão de falar da minha favorita: a capitã Sirara, uma guerreira que luta diariamente contra as expectativas de sua tripulação por ser uma mulher, por ser mais jovem do que os demais e por tentar ajudar mesmo quando tem tão pouco para si mesma – espero que ela participe mais das cenas de ação nos próximos livros.

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O Espadachim de Carvão se destaca pela narrativa leve e ágil – dá para ler tudo em apenas algumas poucas horas – e pelo mundo fantástico e singular, genuinamente brasileiro na diversidade de culturas e na sonoridade de diversos nomes. Qualquer um, independente de idade, sexo ou gosto por gêneros literários, consegue apreciar a viagem por Kurgala e a jornada de Adapak em busca dos segredos dos deuses e da sua própria origem.

Affonso Solano narra com maestria e se prova mais criativo a cada nova página. Confesso que estou ansioso para trazer a crítica do seu novo livro, O Espadachim de Carvão e as Pontes de Puzur, e da HQ As Aventuras de Tamtul e Magano. E também estou ansioso por novos conflitos em Kurgala.

Bernardo Stamato
Vencedor do Concurso Cultura "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, professor de Game Design e 3D Fundamental na empresa Seven Game e escritor (http://entrevirtudesevicios.blogspot.com/). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS3 também.

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