O Exorcista – [Tem que Ver Isso Aí!]

Um dos filmes-chave da era conhecida como “Nova Hollywood” (período que durou de 1968 a 1980 onde jovens diretores conferiram uma nova linguagem ao cinema americano), O Exorcista mostra todo o talento de William Friedkin, diretor responsável por obras como Operação França, Comboio do Medo e Parceiros da Noite.

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Nessa época, o antigo studio system havia ruído e grandes corporações estavam realizando aquisições dos tradicionais estúdios de Los Angeles. Com a antiga geração de cineastas se retirando de cena, os novos administradores, completamente inexperientes no ramo cinematográfico, acabaram contratando jovens saídos de escolas de cinema, bem como veteranos de televisão e do cinema independente para tocar seus grandes projetos. A ideia primordial era a de que esses profissionais saberiam como dialogar com a nova geração de espectadores que surgiu nos anos 60, fato corroborado pelo sucesso de Bonnie & Clyde, Sem Destino e 2001.

Em 72, o megahit Poderoso Chefão foi a confirmação da teoria. Não apenas tinha sido um fenômeno de aceitação do público espectador, mas também era um filme que possuía um forte conteúdo autoral, sendo reconhecido como uma obra de arte.

Tomando a produção de Chefão como modelo, a Warner Brothers deu o ok para a adaptação de um livro já de grande sucesso escrito por William Peter Blatty que contava a história de uma garota possuída pelo demônio. Vários diretores foram cotados, mas a tarefa de capitanear as filmagens ficou com o recém oscarizado (por Operação França) Friedkin.

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Nunca um tema se mostrou tão apropriado para o estilo de filmagem de um diretor. Friedkin estava possesso. Cruel e ditatorial, disparava tiros no set para deixar os atores alarmados. Na cena em que um padre dá a extrema-unção a uma vítima de suicídio, enfiou um tabefe na cara do ator (que era um membro do clero na vida real). E, para completar, exigiu um realismo tão exacerbado nos momentos de conflito do filme que não pensou duas vezes em mandar um membro da equipe puxar para trás com toda a força a atriz Ellen Burstyn, que filmava um momento em que sua filha endemoniada lhe empurrava. Resultado prático da brincadeira, uma lesão permanente no cóccix da vítima.

Porém, na mente do diretor, tais procedimentos eram absolutamente necessários para impedir que o filme virasse um risível filme B. Até aquela época, apenas O Bebê de Rosemary foi produzido com o requinte de uma produção de grande porte. Sendo assim, o realismo das atuações tornavam-se uma prioridade.

Nesse campo, Friedkin não poderia estar melhor servido. Além de Burstyn, ele contou com as presenças lendárias de Max von Sydow (ator bergmaniano que servia como garantia aos espectadores de que esse era um projeto de qualidade), Lee J. Cobb e Jason Miller, ator respeitado no circuito teatral americano.

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Coube a Linda Blair, com apenas 12 anos, o papel de Regan, a possuída. Com momentos fortes marcantes (como a masturbação com o crucifixo), o personagem acabou se tornando uma sombra para a atriz, cujos únicos destaques seguintes foram duas repetições da atuação, uma na continuação Exorcista 2 – O Herege e na paródia A Repossuída.

Tecnicamente, podemos ver porque o filme até hoje funciona. Além de um roteiro redondinho de Blatty – que adaptou seu próprio livro-, o clima sinistro do inicio, marcado por usos de músicas clássicas e efeitos sonoros desconcertantes vai dando lugar, à medida em que Regan vai ficando cada vez mais dominada pelo diabo, a uma fotografia fantasmagórica feita por Owen Roizman (observe todas as seqüências no quarto pós-possessão, com a luz branca estourada). Além disso, os efeitos práticos, inéditos e chocantes para a época, tornaram-se referência para todos os cinéfilos.

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Após o lançamento, muito foi discutido sobre o caráter puritano e machista da obra. Afinal, a possessão se dá no momento em que uma menina entra no período de puberdade, tornando-se uma alegoria para os questionamentos, mudanças de humores e descobrimento sexual, comuns nessa idade.

Com o tempo, porém, O Exorcista acabou garantindo lugar permanente entre os grandes filmes de horror da história.

Mas por favor, não veja à noite.

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O Exorcista
(The Exorcist, 1973)
D: William Friedkin
E: Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Jason Miller e Linda Blair

 

Nota do Autor: 10
Nota do público:(11 votos) 7
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Marcelo Paradella
Publicitário, redator e cineasta (quer dizer, no momento tenta escrever, produzir, dirigir e editar um curta pra concluir seu curso). Acredita piamente na Hipótese do Universo de Tommy Westphall, que Nós Vamos Invadir Sua Praia e Armação Ilimitada são os pontos altos da cultura jovem brasileira e que um apocalipse zumbi é inevitável.

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