O Feitiço do Tempo (1993) [Pop Cine]

Bill Murray acaba de completar 65 anos e é um dos atores mais amados da atualidade. Indicado a um Oscar, ganhador de um Emmy, um Globo de Ouro e um BAFTA, famoso por suas aparições de surpresa em festas e eventos simples, Murray parece ser “gente como a gente”. Entre seus muitos sucessos, um ressoa com mais força, por sua displicência e mensagem poderosa: “O Feitiço do Tempo”.

A grande matéria que o repórter Phil (Murray) deve cobrir é o Dia da Marmota em Punxsutawney. Basicamente o que acontece é um pequeno passo para o mamífero, mas uma grande promessa para a comunidade: se, ao sair da toca, a marmota Phil projetar uma sombra, o inverno se prolongará por mais seis semanas. Phil, o repórter, não está nem um pouco animado com a tarefa. Eu também não estaria.

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A marmota sai da toca, vê a sombra e o prolongamento do inverno é decretado. Phil, o repórter, acredita que a chateação acabou e fica feliz por logo sair daquela pequena cidade de gente sorridente. Mas uma nevasca fecha a estrada, obrigando Phil e sua equipe de televisão a passar mais uma noite em Punxsutawney. E é aí que o impossível acontece: Phil acorda e é o Dia da Marmota de novo. E de novo. E de novo. E só ele se dá conta de que o dia está se repetindo.

Aos poucos Phil muda seu comportamento. Sua primeira reação é tirar vantagem da situação: já que só ele se lembra do dia repetido, Phil conversa com algumas mulheres, aprende o que é o “homem ideal” para elas e no dia seguinte consegue conquistá-las. Mas uma hora nosso Don Juan espertinho se cansa, e Phil decide se matar. Tudo em vão. Phil morre de diversas formas, mas no dia seguinte o despertador toca e ele está vivo de novo. Até que nosso herói aprende uma lição e decide ser mais agradável com as pessoas ao seu redor, incluindo a produtora de TV Rita (Andie MacDowell), o cinegrafista Larry (Chris Elliott) e até o irritante vendedor de seguros Ned (Stephen Tobolowsky).

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Agora, surpresa: Punxsutawney e seu Dia da Marmota existem de verdade, embora estatísticas mostrem que as marmotas da cidade só previram o tempo com menos de 40% de acerto desde 1887.

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“O Feitiço do Tempo” tem entre seus mais ardorosos fãs budistas, teólogos, religiosos em geral e professores de filosofia. A película já foi classificada como “o filme mais espiritualizado dos últimos tempos” e é usado frequentemente como exemplo de experimentação e motivador para se fazer o bem. O diretor/produtor/roteirista Harold Ramis despontou como um Aristóteles moderno, e levou uma mensagem de desprendimento e amor ao próximo.

Mas a realidade estava muito diferente no set de filmagem, e os atritos entre Ramis e Bill Murray se tornaram constantes, destruindo uma colaboração de mais de 10 anos e que havia dado ao mundo “Os Caça-Fantasmas” em 1984. Na época, Murray passava por um período difícil ao se divorciar da primeira esposa, mas não foi seu único rompimento: ele e Ramis jamais voltaram a trabalhar juntos.

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Em uma ironia do destino, a qualidade do filme só se tornou melhor com o passar do tempo e depois de ser visto repetidas vezes, como o próprio crítico Roger Ebert fez questão de notar. “O Feitiço do Tempo” passou a ser usado como estopim de discussões em aulas de filosofia, e se tornou queridinho das reprises da TV a cabo, de festivais e retrospectivas.

E Bill Murray e Harold Ramis fizeram as pazes pouco antes da morte do diretor, em 2014. Durante a cerimônia de entrega do Oscar daquele ano, Murray foi o escolhido para fazer uma singela homenagem ao amigo e companheiro de trabalho, e arrancou lágrimas e palmas da plateia e dos telespectadores. Mais uma prova de que o tempo cura e muda tudo.

Nota do Autor: 10
Nota do público:(5 votos) 7
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Leticia Magalhães
Letícia Magalhães é estudante universitária e tem dois livros publicados. Atualmente mantém o blog Crítica Retro, sobre cinema clássico, e colabora também nos sites Leia Literatura, Antes que Ordinárias, Red Apple Pin-Ups e Gene Kelly Fans.

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