Os Pássaros / The Birds (1963) [Pop Cine]

No começo dos anos 60, Alfred Hitchcock tinha uma árdua tarefa pela frente: superar o sucesso artístico, de crítica e de público de seu último filme, “Psicose”. Todos em Hollywood estavam curiosos para saber qual seria o próximo passo na carreira do mestre do suspense. Ele se aposentaria no auge? Conseguiria fazer um filme tão emocionante quanto o retrato de Norman Bates? Daria um passo errado e amargaria prejuízos? Voltaria a trabalhar com seus habituais colaboradores (a saber, Cary Grant e James Stewart)? Sabem o que ele fez? Foi ao mais óbvio cerne da natureza buscar algo para nos assustar.

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Sim, pássaros. É um pássaro o presente que Melanie Daniels (Tippi Hedren) leva para o homem por quem está interessada, Mitch Brenner (Rod Taylor). Ele mora depois do grande lago, na localidade pacata com o sugestivo nome de Bodega Bay. Dentro de seu barquinho, Melanie é atacada por uma gaivota. Pronto: começou o pandemônio.

Logo os habitantes de Bodega Bay estão sofrendo com ataques aleatórios de aves. Isso inclui a mãe de Mitch, Lydia (Jessica Tandy), a irmãzinha Cathy (Veronica Cartwright) e a ex-namorada de Mitch, a professora Annie (Suzanne Pleshette). Ninguém sabe como ou por que esses ataques começaram. Uma mulher histérica chega a culpar Melanie, a forasteira que trouxe a praga para Bodega Bay.

Aqui temos o primeiro terror gráfico na obra de Hitchcock. O cadáver dilacerado, de olhos furados, do vizinho dos Brenner é uma visão de embrulhar o estômago. A nuvem negra de corvos que se acumula no trepa-trepa constrói o clima de suspense, e a imagem já foi parodiada em muitas ocasiões.

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Talvez Hitchcock tenha desenvolvido o filme sem pensar em uma explicação para o comportamento das aves. Isso é o “MacGuffin”, a “coisa” que dá o fio condutor da história: sem essa “coisa” não haveria o filme. Para Hitchcock, o MacGuffin acabava muitas vezes inexplicado: cada vez mais o diretor acreditava que o MacGuffin não era nada e que, no final das contas, situações mil podiam acontecer sem precisar de uma razão. Mas bem que tentaram explicar o McGuffin de “Os Pássaros”. A acadêmica Camile Paglia, por exemplo, analisa o papel da reprimida e conflitante natureza feminina no comportamento dos animais.

Os efeitos especiais estão longe do nosso atual CGI, e podem parecer bizarros para as plateias modernas. Mas foram uma sensação em 1963, a ponto de garantirem a única indicação do filme ao Oscar na categoria Efeitos Especiais. Quem fez esses efeitos foi Ub Iwerks, animador da Disney e responsável pelos primeiros desenhos de Mickey Mouse.

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Tippi Hedren era modelo e este foi seu primeiro trabalho no cinema. Ela voltaria a ser dirigida por Hitchcock em “Marnie” (1964), mas hoje é mais lembrada por ser mãe da atriz Melanie Griffith (e, consequentemente, sogra de Antonio Banderas). A relação conflituosa entre o diretor Hitchcock e a dirigida Tippi foi mostrada no telefilme “A Garota” (2012), com Sienna Miller interpretando Tippi e Toby Jones como Hitch.

Há quem acabe de ver “Os Pássaros” e fique um pouco decepcionado. Mas é impossível sair do cinema (ou da sala) passivo ao que viu. Não é fácil esquecer as imagens dos ataques, os sons de desespero, os gritos e a destruição causada pelos pássaros. Há a previsão de um remake de “Os Pássaros” para um futuro próximo (o horror, o horror), mas todos duvidamos que alguém consiga causar tanto gelo na nossa espinha quanto o mestre do suspense.

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Leticia Magalhães
Letícia Magalhães é estudante universitária e tem dois livros publicados. Atualmente mantém o blog Crítica Retro, sobre cinema clássico, e colabora também nos sites Leia Literatura, Antes que Ordinárias, Red Apple Pin-Ups e Gene Kelly Fans.

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