Spock, Jornada e a Humanidade

jornada 1Desde que eu me conheço por gente fui fã de Ficção Científica. Não foi alguém que me introduziu o gênero ou me empurrou algum material que me fez ficar fascinado por ela. Provavelmente, não me lembro bem, talvez tenha sido por causa dos desenhos animados que passavam no Xou da Xuxa no final da década de 1980 e início da década de 1990, mas eu me lembro bem que este amor cresceu de uma maneira exponencial quando eu vi, em 1991, numa tarde ou noite de uma sexta-feira de um setembro remoto, creio eu, um episódio de Jornada nas Estrelas.

Como criança, eu não vi nada além de monstros espaciais, luzes piscando, efeitos especiais impressionantes e personagens curiosos. Talvez, naquela época, eu não entendesse bem o fator roteiro e passava os meus 40 minutos vendo apenas a ação em si dos episódios, mas fiquei fascinado, muito fascinado.

Ao ver a Enterprise do lado de “fora”, orbitando no planeta, o meu coração palpitava cada vez mais; quando eles se teletransportavam para um planeta e aquele efeito dourado e o barulhinho clássico do uso do teletransporte com um camisa vermelha eu já esperava que o mesmo iria morrer em seguida e o Magro falaria olhando para o Capitão Kirk, “ele está morto Jim“.

E, nos momentos mais oportunos, o Sr. Spock se postava com a sua posição mais discreta, levantaria a sobrancelha esquerda e diria “Fascinante”, mas, fascinante mesmo, era a maneira como o Spock lidava com o mundo.

Filho de um Vulcano e uma humana, Spock era considerado uma pária para sociedade vulcana, de certa forma, pois não sendo um Vulcano completo, o mesmo teria lidar com as emoções, em que, nos humanos, eram mais bombásticas, fortes e completamente irascíveis. Os Vulcanos, apesar de serem aliados dos humanos, consideravam estes “fracos” por conta das suas emoções mais animalescas, por assim dizer.

E precisando transitar por dois mundos, o Sr. Vulcano era um dos personagens mais humanos da série Clássica, com a ajuda devida dos roteiristas e, principalmente, do ótimo ator que fora Leonard Nimoy, morto em 2015.

A Humanidade

Jornada nas Estrelas, por si, não é uma franquia falando sobre pessoas explorando o espaço. Não é sobre explosões e encontros com outras raças, mas, sim, para falar da humanidade e de como nós, seres humanos, somos indivíduos tão complexos quanto as instituições que nós criamos.

Ao vermos a Jornada Clássica, temos, em cada personagem, uma parte da personalidade de um ser humano típico, um ser voltado para paixão (Kirk), outro voltado para lógica (Spock), outro voltado para o estudo técnico das coisas e se virar quando possível (Scotty), o perspicaz e sarcástico (McCoy), entre tantos outros. Os muitos personagens que ali estão, são, na verdade, um espelho do telespectador – mesmo que isto não tenha sido a intenção original do Gene Rodenberry -, em que os mesmos iriam se identificar mais com um do que com outro, pois somos assim, pessoas que se identificam com pessoas.

E esta forma “clássica” de criar personagens perdurou em todas as séries seguintes, quem é fã da franquia consegue perceber bem a estrutura básica do uso dos personagens, que não estão ali a toa, mas aquela que é mais marcante, é a estrutura do Spock!

É com ele, ao longo da franquia, que vivenciamos o estudo da humanidade. Quando veio a série A Nova Geração, o nosso novo Spock era o Data, um androide, criado pelo Doutor Soong, com o objetivo de se tornar o mais humano possível dotado de uma lógica suprema – a mesma almejada pelos Vulcanos. Só que existe um porém para o Data, ele não conhece as emoções, o seu cérebro positrônico não foi programado para tanto e, por isso, uma simples piada passa batido para ele ou uma citação irônica de seus colegas e amigos!

Vemos, a partir dos olhos e observações dele, o conhecer humano, o que de fato nos torna esta massa orgânica complexa de pensamentos e sentimentos e que, por mais que tentemos, jamais iremos entender por completo. Até o final da série, Data foi o nosso Spock e um dos mais interessantes.

Um Estado Gelatinoso

Em DS9, tivemos, creio eu, o Odo, um personagem transmorfo que trabalha na estação de Terok Nor, dos Cardassianos durante a Ocupação em Bajor, até que os Bajorianos chamaram a Federação para ajuda-los na reconstrução de seu planeta natal, então a Frota Estelar rebatizou a estação com o nome de DS9.

Odo, que é, na verdade, um ser da raça conhecida como Fundadores, veio ao quadrante Alfa para tentar estudar, conhecer e, de alguma forma, relatar as espécies que ali se encontravam, para uma possível invasão do Dominion e tornar as coisas mais suaves de serem conquistadas.

Este personagem, assim como o Spock e o Data, pode ser considerado um observador, pois ele estava tentando entender o modo de vida dos sólidos, como transmorfo o estado natural do Odo é algo como um ser gelatinoso, e as complexas teias emocionais que tangenciavam a vida de cada amigo seu naquela estação.

Ele só poderia entender estas relações até certo ponto que, assim como o Data ou o Spock, estavam atreladas ao seu limitado ponto de vista, no caso do Odo, mais por questões fisiológicas do que qualquer outra coisa.

A consequência da consciência

Na sequência tivemos Voyager, e neste um dos personagens mais fascinantes da franquia como um todo. Em Jornada nas Estrelas, desde A Nova Geração, tivemos um conceito introduzido como Holodeck, onde, de maneira bem resumida, uma pessoa entra numa sala escura e usando-se de hologramas, cria mundos tão reais como o próprio mundo em si.

Os técnicos da Frota Estelar vendo que o Holodeck poderia trazer avanços substanciais acerca de ajuda para com os oficiais de uma nave estelar, criaram o Holograma Médico de Emergência. Este holograma especial ficava na enfermaria e só seria ativado em casos de emergência, mas como o médico da Voyager, que fora parar no outro lado da galáxia, morrera, o HME passou a ficar ativado continuamente.

E, com isto, acabou se tornando mais do que um mero programa, e sim um membro ativo da tripulação, fugindo, com o passar do tempo, os arcabouços limitantes do seu programa original e se tornando quase humano, criando, até mesmo, gostos e apreciações por arte, música e afins, mas, ainda assim, um observador da natureza humana com todas as regras que a consciência nos põe.

Num contraponto tivemos a Sete de Nove, uma personagem que veio aparecer depois de um certo tempo e que, diferente dos demais personagens observadores da humanidade, ela era uma humana que fora assimilada pelos Borgs.

Quando ela viera se unir a tripulação da Voyager, Sete de Nove que fora assimilada ainda criança, perdera toda a sua identidade pessoal, gostos, vontades, amores, paixões, tudo havia sido apagado pelos Borgs, pois nada disto era relevante.

Com o passar do tempo, o choque desta nova consciência a fizera perceber o quanto da humanidade havia perdido e, por mais relutante que fosse, queria tentar reconquistar e preencher o buraco vazio de parte de sua existência. Um fato curioso é que o mentor dela para esta reconquista é ninguém menos que o Doutor, o holograma de emergência, um programa que simula a consciência humana, ou seria ele mesmo a própria consciência humana?

De uma Jornada Quase Perdida

Eu bem ainda poderia falar de Enterprise, mas os personagens em si, a forma que eles foram criados, são quase os mesmos da Série Clássica, assim iria estender por demais este artigo que, a priori, era para falar de Spock, Vulcanos e Leonard Nimoy e virou uma outra coisa diferente, mas por outros motivos.

Não gostaria aqui só de ficar falando bem do Nimoy em detrimento da franquia em si, pois Jornada nas Estrelas é o que é, não por conta de um ator, um diretor ou um roteirista, mas do trabalho conjunto de todos para tornar este breve estudo social em algo palatável e menos chato.

É de mostrar como é possível termos um futuro melhor se todos trabalhassem para isto. De como a cada esquina de uma galáxia desconhecida existe um perigo, um conhecimento, uma nova civilização a ser tratada, a ser conhecida, a ser estudada, a ser respeitada, o mesmo valendo para a nossa vida, em toda a parte, ao nosso redor.

De como as nossas relações pessoais são importantes, de como cada amigo, parente e vizinho temos de tratar com respeito e civilidade e que isto se torna um processo continuo de melhoramento para humanidade como um todo.

Pena que os dois últimos filmes criados por JJ Abrams estão obliterando o que foi criado por esta turma passada. Será que a Paramount não vê que ao colocar explosões, comédia barata e casos de amor em Jornada, a sua essência está sendo destruída?

A franquia, para muitos fãs, está se tornando uma Jornada perdida…

Jornada nas Estrelas não é estrelismo, que, penosamente, alguns atores da franquia passaram por isto, mas, justiça seja feita, levaram tapa na cara e voltaram atrás (Nimoy refutou uma vez que não era o Spock e tomou pesado por todos os fãs e voltou atrás), e sim sobre:

Picard: “Eu espero que esta seja a última vez que eu me encontre aqui.

Q: “Você realmente não entendeu não é, Jean-Luc? O julgamento nunca acaba. Nós queríamos ver se você tinha a habilidade de expandir a sua mente e seus horizontes. E, por um breve momento, você conseguiu.

Picard: “Quando eu decifrei o Paradoxo.

Q: “Exatamente. Por uma breve fração de segundo, você estava aberto para todas as opções que jamais havia considerado. ‘Esta’ é a exploração que espera por você. Não mapeando estrelas e estudando nebulosas, mas descobrindo as possibilidades desconhecidas da existência.

Jornada nas Estrelas é isto, tentar descobrir, por nós mesmos, as possibilidades desconhecidas da existência, tentando, por nós, conhecer a si mesmo e a todos os outros ao nosso redor.

Por fim, só quero agradecer efusivamente a Leonard Nimoy (Sr. Spock), DeForest Kelley (Dr. McCoy), James Doohan (Sr. Scooty), que já fizeram a sua jornada para a verdadeira Fronteira Final, juntamente a William Shatner (Capitão Kirk), Nichelle Nichols (Uhura), George Takei (Sr. Sulu) e Walter Koenig (Sr. Checov), que fizeram as minhas tardes – e as noites de milhões de pessoas no mundo inteiro, mesmo que por um breve período, usando as palavras do Sr. Spock, FASCINANTES.

star-trek-by-rimworldsdotcom

Daniel G. Fernandes
Este ser é um viciado em games, sejam de consoles, sejam de PC's e tem uma paixão arrebatadora em Tecnologia, aficcionado em filmes dos anos 1980 e 1990, ele pode não se lembrar o nome do diretor, do filme ou do ator, mas quando tem opinião ele fala mesmo! SegaManiaco de Coração, ele também bate ponto nos sites Gamehall, Marketing & Games, Blast Processing, Brazuca Gamer e Comunidade Mega Drive!

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  • Eu cresci assistindo as reprises de Star Trek, e sempre que podia eu parava para assistir. Não me considero um grande fã, mas tenho um carinho e respeito por tudo o que a série representa.

    O seu texto me fez recordar esses dias simples em frente a tv, acompanhando as aventuras da Interprise. E isso só aumentou a minha vontade de rever toda a série.

    Texto fantástico Daniel, parabéns!

    • danielgfm

      Obrigado Cyber,

      Passar esta sensação nostalgica é algo que eu sempre tento fazer enquanto escrevo. E, sinceramente, creio eu, é isto que torna mais gostoso uma leitura, porque o leitor acaba por se identificar com o texto!

      Vida longa e próspera para você, a minha pessoa e todos os fãs de Jornada! \//_