A Arma Escarlate [Leitor Nerd]

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O ano é 1997. Em meio a um intenso tiroteio, durante uma das épocas mais sangrentas da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, um menino de 13 anos descobre que é bruxo. Jurado de morte pelos chefes do tráfico, Hugo foge com apenas um objetivo em mente: aprender magia o suficiente para voltar e enfrentar o bandido que ameaça sua família.

Renata Ventura é jornalista e escritora, conhecida pelos livros de fantasia A Arma Escarlate e A Comissão Chapeleira, em que utiliza a fantasia para falar da realidade brasileira, abordando temas sérios como desigualdade social, preconceito, abandono, drogas e corrupção. Por abordar temas sérios da realidade brasileira e da natureza humana em um ambiente fantástico, seus livros vêm chamando atenção de jovens e adultos, que procuram as obras tanto pelo entretenimento quanto por seu conteúdo filosófico, histórico, sociológico e político. Algumas escolas já adotaram os livros como paradidáticos, para incitar debates em sala de aula.

O maior destaque de A Arma Escarlate é contrapor a magia e o mundo real. Enquanto muitos livros de fantasia urbana deixam de lado o mundo alheio ao fantástico, Ventura mostra constantemente os contrastes entre os bruxos e os azêmolas, aqueles que desconhecem a feitiçaria. Mostra através da realidade boêmia na Lapa, da vida no morro e do tráfico de drogas – temas que nós desejaríamos que fossem menos reais, entretanto são cotidianos em nossas vidas.

Renata Ventura

Nesse cenário semi-fictício, o Brasil tem uma escola de bruxos por região, cada uma sobrecarregada da cultura local. Os únicos traços britânicos na escola de magia são a arquitetura, o conservadorismo da elite e as comparações sobre como as coisas são mais organizadas e eficientes na Inglaterra – novamente, elementos que podemos ver no nosso mundo real todos os dias. Dentro deste sistema de ensino falho, alunos e professores transbordam personalidade tanto pelo sotaque muito bem emulado entre as páginas, quanto pelos tipos de alunos que podemos reconhecer dos nossos tempos de escola.

Falando em alunos e professores, os personagens do livro são fascinantes. Hugo, o protagonista, consegue provocar a mais legítima raiva pelas suas ações impensadas e até mesmo mesquinhas – e isso é bom. Por mais que ele possa ser cruel e autodestrutivo – e ele não mede esforços na hora de machucar alguém -, o leitor consegue compreender o que o levou a viver daquele jeito, consegue ver o seu passado, sua vida, suas decepções e cicatrizes e enxergar que qualquer um poderia cometer os mesmos erros ou até piores. No fim das contas, Hugo é um garoto frustrado com uma arma na mão, como vários outros no Brasil.

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Além de Hugo, personagens como Capí – aquele amigo que é benevolente demais para ser verdade, que parece sempre se sacrificar pelo próximo, que consegue te tirar do fundo do poço quando nem mesmo você acredita que merece redenção -, como Atlas – o professor que cativa os alunos, mas que também tem seus fantasmas do passado e suas cicatrizes profundas e escondidas – e até mesmo como o Eimi – um garoto tão inocente e carente, que se torna a maior das vítimas – dão cor e vida ao romance, fazendo o leitor crer que essa história poderia ter acontecido, apenas sem a magia e os espíritos.

A Arma Escarlate é notoriamente e injustamente comparada com Harry Potter. Apesar da inspirações e das referências serem óbvias, Renata Ventura não foi nada preguiçosa ao imaginar como seria uma escola de magia no Brasil. Ela derramou muito suor ao elaborar as incontáveis diferenças culturais e suas consequências, ao trazer elementos do nosso próprio folclore e construir uma mitologia nova e singular a partir dele e ao misturar a fantasia e a realidade, sem medo de falar do crime, das tragédias, da miséria e do tráfico com o qual o brasileiro é obrigado a conviver todos os dias.

A Arma Escarlate não é um livro para criancinhas. É um livro maduro, saboroso e áspero. Um livro que pode cortar a mão desavisada com suas bordas afiadas. Sem utopias e sem desilusões, Renata Ventura criou uma fantasia baseada na realidade.

PS: Caso queira conhecer melhor Renata Ventura e sua obra, confira a entrevista na Bienal do Livro:

Bernardo Stamato
Vencedor do Concurso Cultura "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, professor de Game Design e 3D Fundamental na empresa Seven Game e escritor (http://entrevirtudesevicios.blogspot.com/). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS3 também.

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