A Fábrica de Coturnos (The Boot Factory) – Crítica

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A Fábrica de Coturnos (The Boot Factory, Polônia, 2000) não é um documentário sobre uma fábrica de coturnos. Não é um documentário sobre o movimento punk na Polônia. Não é um documentário sobre o Anarcossindicalismo. A Fábrica de Coturnos aborda estas três temáticas, mas, sobretudo, discute o sentimento de não pertencimento dos que vivem naquele país.

E um viés bem pertinente para o feito é justamente mostrar a trajetória de alguns punks. E não é porque o diretor aborda o movimento punk e, consequentemente, fale sobre o movimento anarquista, que ele reduz o filme a isso. O próprio título já traz uma ideia quase provocativa sobre a temática.

A Fábrica de Coturnos integrou a mostra “Música do Underground”, do Indie Festival 2014, ocorrido em Belo Horizonte e São Paulo. Dirigido pelo experiente documentarista Lech Kowalski, o documentário acompanha a rotina de alguns garotos punks que trabalham em uma fábrica de coturnos, inclusive a de seu idealizador, e a relação desenvolvida entre todos eles. A Fábrica de Coturnos, On Hitler’s Highway (2002) e East of Paradise (2005), todos dirigidos por Kowalski, integram justamente uma trilogia sobre a sobrevivência e resistência do povo polonês. O filme faz um recorte sobre o legado disperso do lendário movimento “Solidariedade”. Movimento que, assim como o sindicato, o cidadão polonês também desconhece.

É interessante notar a escolha do diretor, ao abordar uma espécie de ascensão de um dos garotos que encabeçou a fábrica, bem como o impacto causado em suas vidas. Existe uma cena em que um dos garotos cita a sorte do idealizador do negócio. Isso explicita o sentimento de não pertencimento a uma região, a falta de oportunidade, as questões levantadas pelo movimento punk, além da dificuldade de se manter os princípios do movimento anarquista, num mundo essencialmente capitalista.

O documentário não expõe a questão do capitalismo apenas sob a égide sórdida com a qual a maioria dos filmes trabalha. Ele até pode ter um quê de panfletário, mas no limite exato em que a sua importância obsecra. Prima muito mais por uma luta pela liberdade de expressão e pelo direito à diferença que propriamente por justificativas apresentadas por movimentos.

O filme também acompanha a trajetória polêmica de um dos garotos viciado em drogas, passando por diversas tentativas de recuperação e o julgamento dos que o cercam. Um grande mérito do documentário é levantar a polêmica das drogas, sob a óptica dessa Polônia desencontrada. Ou seja, o diretor não desarticula nenhuma das possíveis justificativas para o que está na tela, mas também não entrega nada mastigado. Todas as questões controversas pelas quais o filme transita e o impacto causado na vida dos garotos culminam para um documentário que abarca, com completude, tudo aquilo a que se propõe filmar.

Nota do Autor: 9
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Eduardo Kacic
Fanático pela sétima arte. Roteirista de longa-metragens (com duas obras registradas na Biblioteca Nacional) e crítico de cinema com mais de 2.000 textos publicados, Eduardo assiste à todo tipo de filme, desde blockbusters até experimentais, mas seu Olimpo é habitado por Spielberg, Eastwood, Scorsese e Tarantino. Seu filme preferido (e insuperável) é Os Bons Companheiros, do Scorsese. https://www.facebook.com/eduardo.kacic.7 https://www.instagram.com/kacicedu/ https://br.linkedin.com/in/eduardokacic https://twitter.com/edukacic1

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