Conjurador – O Aprendiz [Leitor Nerd]

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Em Conjurador – O Aprendiz, Fletcher é um órfão de 15 anos e, para sua surpresa, conseguiu invocar um demônio do quinto nível. O problema é que apenas os nobres deveriam ser capazes de conjurar criaturas e usá-las na guerra contra os orcs. Mas plebeus como Fletcher também podem ser conjuradores, e o garoto consegue uma vaga na Academia Vocans, uma escola de magos que prepara seus alunos para os campos de batalha. Lá, ele irá enfrentar o bullying dos nobres, mas também aprenderá feitiços e fará amigos incomuns, como anões e elfos. Além de se provar digno de uma boa patente na guerra, Fletcher e seu grupo de segregados precisam se unir e vencer o preconceito que sofrem na desigual sociedade de Hominum.

Taran nasceu em Londres no ano de 1990, filho de uma brasileira e um indiano, e encontrou uma paixão pela leitura ainda muito novo. Seu amor por histórias se desenvolveu num desejo de criar a própria ainda no início da adolescência, começando o seu primeiro livro aos 9 anos de idade. Seu primeiro livro já foi publicado em 2015 no Reino Unido, nos EUA, na Alemanha, na Espanha, em Taiwan, na Rússia e no Brasil.

O primeiro diferencial notável do romance é o seu cenário: um mundo medieval onde os humanos reinam sobre elfos e anões e guerreiam contra os orcs usando invocações demoníacas como principais armas. As relações com os elfos e anões são delicadas: ao mesmo tempo em que a descriminação é forte, existe muita luta social por igualdade e também a dependência dos recursos de cada povo. Os orcs, por sua vez, têm uma participação pequena no primeiro livro, que abre precedentes para questões que serão desenvolvidas no futuro.

As principais características deste mundo são os demônios e a magia. Aqui, os conjuradores precisam invocar e domar demônios a fim de criar um elo arcano com as criaturas e ter acesso à magia. Taran não economiza nas descrições de como conjuradores e demônios se conectam, como tecem suas magias e como funciona a dinâmica entre os mundos. Enquanto muitos escritores gastam a paciência dos leitores descrevendo mundos irrelevantes, cada página d’O Aprendiz apresenta com profundidade um cenário colorido e intenso.

Dentro desse mundo, os personagens são reflexos convincentes da nossa sociedade. A discriminação impera, os mais abastados desfrutam de privilégios que nunca chegarão aos miseráveis, ser de uma raça diferente significa sofrer de abusos e preconceitos e a meritocracia não passa de uma utopia.

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Os principais destaques com certeza vão para três personagens. Fletcher foi criado por um ferreiro e tinha sonhos simples, como comprar uma roupa melhor, até que encontra um tomo e, meio por acidente, meio descobrindo suas aptidões, ele invoca Ignácio, uma salamandra como poderes de fogo, que logo se torna seu mais fiel companheiro. Otelo começa como um anão relutante, já habituado a não poder confiar em humanos, até que Fletcher mostra para ele como os dois têm muito em comum – ambos conhecem o gosto amargo da desigualdade social e sabem como é a frustração de ver autoridades inescrupulosas tirando vantagem dos menos favorecidos -, de modo que a amizade se torna intuitiva. Por fim, Sylva é uma elfa que fica dividida entre os seus deveres diplomáticos e as suas amizades – por um lado, seu povo precisa que ela crie laços fortes com os nobres, por outro, ela percebe que os segregados são os mais sinceros e honestos dentro daquela academia.

É quase injusto falar só desses três personagens, quando o romance apresenta tantos outros tão complexos e verossímeis, como Arcturo, um dos únicos que compreende o valor e as necessidades dos plebeus, e Rook, que acredita na legitimidade dos privilégios dos nobres e que dedica seus esforços para manter a sociedade do jeito que ele acha que tem que ser. Só não falarei mais deles e de outros para este texto não ficar gigante e para deixar que os leitores descubram os personagens por conta própria.

Com um cenário e personagens tão bem elaborados, não é de se espantar que o enredo seja envolvente. Taran não perde tempo com reflexões piegas, mostrando na prática como funciona uma sociedade injusta, como os plebeus precisam se esforçar muito mais para terem alguma chance de se igualar aos nobres em combate – o que não quer dizer reconhecimento instantâneo – e como a humanidade está disposta a se perder em competições mesquinhas enquanto existem ameaças reais à espreita. Nunca vi tanta ação, tanto desenvolvimento de personagens e tanta descrição de um mundo tão rico numa obra tão dinâmica.

Conjurador – O Aprendiz é um livro acessível para qualquer um, seja um leitor voraz que está acostumado com leituras pesadas como Tolkien, Cornwell ou George R.R. Martin, ou para aqueles que preferem uma aventura mais voltada para a ação, como Rowling ou Rick Riordan. Até mesmo os jogadores de Skyrim ou Pokémon vão se sentir em casa neste romance.

É o tipo de livro que você devora e nem percebe. Excelente.

PS: Taran Matharu está agora publicando o seu blogue pessoal traduzido em português no Wattpad, vale muito a pena checar: https://www.wattpad.com/229347061-meu-blog-portugu%C3%AAs-do-wattpad-ao-bestseller

Nota do Autor: 10
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Bernardo Stamato
Vencedor do Concurso Cultura "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, professor de Game Design e 3D Fundamental na empresa Seven Game e escritor (http://entrevirtudesevicios.blogspot.com/). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS3 também.

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