Escritores da liberdade (Freedom writers) – [Cinema e Subjetividade]

A coluna Cinema e Subjetividade está de volta (oba!) e traz o filme Escritores da liberdade. Inspirado numa história real, o filme é baseado no livro homônimo e retrata a vida escolar de adolescentes que vivem em meio à violência doméstica, tráfico de drogas, brigas entre grupos rivais entre outros problemas sociais. Nesse contexto, temos Erin Gruwell, a professora que tentará modificar a vida desses adolescentes. A escola onde se passa o filme é pública e é considerada uma escola modelo. Com o objetivo de ajudar alunos desfavorecidos, a escola cria uma turma especial para que eles tenham a mesma oportunidade de aprendizado que os outros. Teoricamente, foi uma ótima iniciativa da Secretaria de Educação, porém, na prática, percebemos que é um pouco mais complexo que isso.

Erin Gruwell é vivida por Hilary Swank, que já tem dois Oscars de melhor atriz no currículo (Meninos não choram e Menina de ouro). Erin vem de uma família de classe alta e isso é evidente já que o colar de pérolas faz parte do seu “look” de trabalho. Ela é casada com Scott (Patrick Dempsey), mas sinceramente esse personagem é mais do que secundário, pois a prioridade de Erin é a escola. Até dá uma peninha dele sendo colocado em terceiro plano (se fosse eu, o colocaria em primeiro!). O personagem principal dessa história com certeza não é Erin e sim os alunos. Para eles, a professora é só mais uma tentando ensinar algo de que eles não precisam ou não querem.

A disputa entre grupos rivais é mostrada de forma bem clara

 

A violência faz parte da vida desses adolescentes

O choque de realidade que Erin vivencia no filme fica claro quando ocorre uma briga na escola. Seu espanto é evidente. A sala de aula em que ela vai lecionar é aquela especial dos alunos desfavorecidos. Logo ela entende que ali há uma diversidade de grupos, latinos, negros, orientais entre outros. Todas as tentativas que Erin faz para ensinar literatura inglesa são em vão. Como ensinar Shakespeare a esses adolescentes se eles sequer sabem se voltam para casa vivos? Ainda há a indiferença da escola que demonstra um evidente desinteresse em incentivar o aprendizado desses alunos.

O “bullying” com um colega de sala

É graças a um episódio de “bullying” durante a aula que Erin decide fazer algo diferente. Ela sugere que os alunos leiam O diário de Anne Frank e passem a escrever eles mesmos um diário, contando sobre sua vida, suas dificuldades e seu sofrimento. É nesse momento que as coisas começam a mudar. Quando eles mesmos escrevem sua história, as mudanças acontecem. Essa escrita acabou tomando proporções inesperadas a ponto de atravessar continentes. Além disso, chamou a atenção da jornalista Tracey Durning que foi co-produtora do filme juntamente com Hilary Swank.

O sujeito tem uma tendência a buscar aqueles que são iguais a ele. Na história do mundo sempre houve formação de grupos. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, Hitler dizimou grande parte da população judia, pois os considerava uma raça inferior. No entanto, dinheiro e poder também estavam envolvidos. Hoje o assassinato de mulheres, gays, negros ou índios ainda aparece no noticiário. Ao escreverem suas próprias histórias e conhecerem a dos colegas, os alunos de Erin perceberam que o preconceito e a falta de tolerância que sofriam eram as mesmas.

Conhecer o outro, compreendê-lo e entender suas motivações pode ajudar a respeitá-lo. Fazer parte de um grupo é importante para construir nossa identidade, para nos reconhecer como pertencentes a algo. Isso diz muito sobre nós mesmos. Porém, é preciso ter a mente aberta para entender que existem pessoas diferentes de você, que pensam de outra maneira, mas nem por isso elas são inferiores a você, tampouco superiores, apenas distintas. Política, religião e opção sexual tendem a serem assuntos que dividem opiniões. A internet está repleta de pessoas com “opiniões formadas” sobre tudo. Mas parece que frases como “é minha opinião” ou “tenho liberdade de expressão” se tornaram sinônimos de intolerância. Todos temos nossos valores, nossas crenças e nossas opiniões e gostaríamos de sermos respeitados pelo que somos e escolhemos. Que tal se também respeitássemos as escolhas do outro? Essa é a mensagem que Escritores da liberdade deixa às pessoas. Na verdade, essa é a mensagem que Erin tentou passar a seus alunos. O filme é ótimo para servir a estas reflexões e merece ser visto e revisto, principalmente por quem trabalha na área de educação ou social.

Confiança é algo que se conquista…

 

…quando nos disponibilizamos a ouvir o outro sem julgamentos ou preconceitos.

 

Erin Gruwell e seus alunos na vida real

Rayana Lima
Formada em Psicologia e, atualmente, está terminando o Mestrado também em Psicologia. Adora diversos tipos de filmes e sempre gosta de assistir várias vezes aqueles que mais lhe agradam. Seu estilo preferido é suspense e terror, mas também adora um romance, uma comédia ou um drama bem construído. O estilo musical também é bem eclético, mas não peçam pra ela escutar Annita e afins. No seu tempo livre, ama dançar e gosta de jogar videogame. Mas só os de corrida, porque os de plataforma e RPG são lentos demais pra ela.

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