Guanabara Real: A Alcova da Morte [Leitor Nerd]

Passear pelo Rio de Janeiro é como um passeio de trem. No assento certo, a jornada será elegante e confortável. Não tem dinheiro pra pagar o alto preço do assento certo? Boa sorte se equilibrando entre os coices e as reviravoltas bruscas do veículo. Guanabara Real: A Alcova da Morte mostra essas facetas e muitas outras da Cidade Maravilhosa, um cenário tão sorridente e acolhedor quanto traiçoeiro e tenebroso.

Durante a inauguração da monumental estátua do Cristo Redentor, um crime assusta a alta sociedade carioca. Nesse mistério, a investigadora particular Maria Tereza Floresta, o dândi místico Remy Rudá e o engenheiro positivista Firmino Boaventura se embrenharão numa arriscada trama de corrupção e poder. A agência de detetives Guanabara Real precisará de toda a sua perícia para solucionar os mistérios arcanos e os enigmas tecnológicos da Alcova da Morte! Três heróis, três autores e uma Cidade Maravilhosa que nunca existiu!

O Trio Steampunk que escreveu Guanabara Real: A Alcova da Morte é composto por Nikelen Witter, historiadora, pesquisadora e professora, que organizou a Odisseia de Literatura Fantástica entre 2012 e 2015 e autora de Territórios Invisíveis, A. Z. Cordenonsi, formado em Computação, professor como profissão e escritor como vocação, como pode ser evidenciado em Le Chevalier e a Exposição Universal, e Enéias Tavares, doutor em literatura inglesa e tradutor, professor e autor d’A lição de Anatomia do Temível dr. Louison.

Guanabara Real: A Alcova da Morte, publicado pela AVEC Editora, é ficção científica em seu melhor. O cenário é familiar e distópico ao mesmo tempo. Temos um Rio de Janeiro com toda a sua beleza e sua decadência: o Corcovado, os Arcos da Lapa, o Jardim Botânico, o racismo, a miséria, o jornalismo tendencioso, tudo o que faz a cidade merecer o título de maravilhosa, tanto quanto tudo aquilo que torna tal apelido sarcástico. Quem conhece o Rio vai se sentir em casa pelas páginas do livro, exceto pela ambientação do fim do século XIX e pelos vapores e engrenagens dos bondes nas calçadas e dos dirigíveis nos céus da cidade.

Tão cariocas quanto o cenário, são os personagens do romance. Dona Maria Tereza Floresta é uma mulher acostumada com as ruas, com seus moradores e seus andarilhos, o que tem de elegante, tem de direta e precisa em suas convicções e seus argumentos para alcançar aquilo que deseja. Firmino é um brilhante engenheiro que não consegue emprego na sua área por ser negro, mas acaba usando seu intelecto impecavelmente logístico e seu conhecimento científico em prol de uma causa maior como detetive particular. Remy, por sua vez, é uma contradição divertida e pitoresca com sua vaidade e luxúria desavergonhadas e seu vasto conhecimento em esoterismo, zoologia e alquimia, alguém que surpreende tanto pela leveza e descompromisso quase que eternos e pela seriedade e obstinação nos momentos mais críticos. Contudo, meu personagem favorito foi o grande benfeitor do Rio de Janeiro, o Barão do Desterro, um homem de muito empreendedorismo, muita generosidade e muita ambição, responsável por alavancar a ciência e o progresso no Brasil, tão benevolente que se dispõe a ajudar a agência Guanabara Real nas investigações do crime que ocorreu dentro do seu território, o Corcovado, onde ele promoveu a maior obra arquitetônica das Américas de todos os tempos, uma estátua colossal desconcertantemente similar à sua própria imagem.

A narrativa se divide em um capítulo focando em cada um dos três protagonistas, que exploram a Cidade Maravilhosa buscando pistas em becos inóspitos, prédios – que deveriam estar – abandonados, necrotérios, universidades, templos esotéricos, botecos e toda a multipluralidade de ambientes que a antiga capital brasileira tem a oferecer, sempre revelando as nuances dos mistérios ao mesmo tempo em que oferece mais enigmas, enquanto os personagens são apresentados, desenvolvidos e retalhados pela sua malquista benevolência numa leitura dinâmica e saborosa.

O grande diferencial de Alcova Real é justamente as seis mãos que escreveram. Tanto quanto o Rio de Janeiro é capaz de oferecer diversas sensações misturadas, os três autores trouxeram experiências e visões diferentes de literatura e de narrativa, o que enriqueceu de forma esplêndida o enredo do livro. Este romance não é apenas um primor da ficção científica, mas também um exímio exemplo de cooperação e esmero de três talentos que multiplicaram a qualidade da escrita.

Guanabara Real: A Alcova da Morte é o começo de uma saga cheia de potencial, capaz de agradar leitores de todos tipos, seja os aficionados por sci-fi, investigação policial ou horror sobrenatural, por qualquer um que se opõe ao machismo, racismo e intolerância religiosa, ou simplesmente por quem desejar desfrutar de um confortável passeio – dependendo do assento que você reservou – numa locomotiva fumacenta pelos trilhos tortos de um Rio de Janeiro recriado à imagem e semelhança de um tirano que se diz patriota e progressista.

Bernardo Stamato
Vencedor do Concurso Cultura "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, professor de Game Design e 3D Fundamental na empresa Seven Game e escritor (http://entrevirtudesevicios.blogspot.com/). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS3 também.

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  • Diego Phiłł

    Interessante… vou conferir!