O Mago das Mentiras (The Wizard of Lies) – Crítica

Antes de completar quarenta anos de idade, Robert De Niro já tinha dois Oscars. E, depois de certa idade, ele parou de ser seletivo com seus papéis – embora isso não signifique que ele tenha perdido seu talento. Afinal, o mesmo homem que fez “Tirando o Atraso” em 2016, no ano seguinte estrela um bom filme para a HBO e mostra que seus dias de glória ainda não acabaram.

Em meio à crise financeira de Wall Street em 2008, um dos principais personagens a tomar o centro do palco foi Bernie Madoff. Ele era o dono de uma empresa de investimentos que, em dezembro de 2008, após décadas de mentiras, revelou que sua fortuna não passava de uma mentira. Ele criava valores e lucros exagerados em planilhas, tomava dinheiro de alguns investidores para pagar outros e atrair ainda outros, e todos, menos ele, saíam prejudicados.

A partir do momento em que o maior esquema de fraude financeira da história foi descoberto, Bernie e sua família se tornaram alvo de investigação e, claro, da curiosidade da mídia.

De Niro interpreta Bernie como um Travis Bickle – seu personagem em “Taxi Driver”, de 1976 – mais calculista e controlado. Mas Bernie não é um personagem estranho de um clássico de Scorsese: ele é uma pessoa real.

E o drama de sua família é real. Segundo “O Mago das Mentiras”, Bernie agiu sozinho o tempo todo, de modo que sua esposa e seus dois filhos, embora trabalhassem com ele, não sabiam de nada. Mesmo assim, sofrem com o assédio dos jornalistas, com as especulações acerca de sua conduta e com comentários maldosos na internet e, claro, na vida real.

E é nestes momentos dramáticos para a família que fica claro quem é o melhor ator em cena: Alessandro Nivola, que interpreta o filho mais velho de Bernie, Mark. Mark fica obcecado com tudo o que sai na internet sobre sua família, a ponto de ficar trancado em casa permanentemente, ao estilo Howard Hughes, apenas monitorando as notícias.

Além de Nivola e De Niro, completam o elenco principal Michelle Pfeiffer, como a esposa de Bernie, Ruth, e Hank Azaria como Frank, um dos funcionários que sabiam a verdade sobre o esquema.

Na estrutura do filme temos alguns flashbacks que complicam, mas não atrapalham completamente o entendimento. O destaque fica por conta da montagem e da mise en scène de duas sequências: o delírio de Bernie na noite de Natal e a negociação desesperada dele com clientes em uma festa de casamento, com os efeitos sonoros criados ali mesmo, pela banda.

Devemos julgar Bernie pelo que fez, ou duvidarmos se a família dele sabia ou não de tudo? Não sei. “O Mago das Mentiras” não traz lição de moral, apenas a realidade nua e crua. Em um momento como o que vivemos, com casos de corrupção que de alguma forma se assemelham com o escândalo de Bernie, somos convidados a pensar muito nas consequências. E obrigados a perceber que Bernie ao menos teve a decência de se declarar culpado pelo que fez.

Nota do Autor: 8
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Leticia Magalhães
Letícia Magalhães é estudante universitária e tem dois livros publicados. Atualmente mantém o blog Crítica Retro, sobre cinema clássico, e colabora também nos sites Leia Literatura, Antes que Ordinárias, Red Apple Pin-Ups e Gene Kelly Fans.

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