Velho Logan [Leitor Nerd]

velho logan capa

Quantos vilões existem para cada herói? 20? 50? A vantagem numérica é absurda. E não é uma questão de soldados, é uma questão de poderes. O que aconteceria se os vilões se organizassem entre quais tem vantagens contra cada herói e fizessem um grande ataque surpresa em massa? Isso mesmo, é difícil imaginar os super-heróis sendo derrotados, mas essa mania de não matar os bandidos poderia ser a ruína deles. Em Velho Logan, foi!

Quem roteiriza é Mark Millar, a mente por trás dos quadrinhos Guerra Civil, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido e Kick-Ass. Isso já diz muito sobre o perfil do cara, o lance dele é histórias violentas, mas com muito conteúdo e bagagem por trás. O que é a Guerra Civil, se não décadas de tensões desencadeadas de uma vez só? O que é Velho Logan, se não um “e se os vilões vencessem” levado ao pé da letra? Acompanhando as ideias de Millar, quem ilustra é Steve McNiven, que já ilustrou para o Quarteto Fantástico, Homem-Aranha e até a Guerra Civil. Gosto do estilo dele não só pela sanguinolência – brutal, mesmo sem ser exatamente grosseira -, mas também pelos traços em nanquim e pelas hachuras, imprimindo com precisão o que deve ser límpido, o que deve ser borrado, o que deve ser imundo e assim vai.

Sem spoilers, o enredo é basicamente uma viagem de estrada com o Logan aposentado e o Gavião Arqueiro cego – que manteve sua pontaria extraordinária. Eles viajam pelos EUA devastados e divididos entre vilões como o Rei do Crime, o Doutor Destino e o Norman Osborn. A motivação da viagem é simples: a Gangue Hulk – filhos e netos incestos do Bruce Banner e da Jennifer Susan Walters – estão cobrando o aluguel para o Logan, que recebe a oferta do serviço de entrega do amigo Gavião e a dupla parte para fazer dinheiro. Enquanto a grande derrota dos super-heróis nunca é exibida em detalhes, vários pontos turísticos dão pistas do fim de vários personagens relevantes – nada feliz. E o mais intenso é que Logan renega o título de Wolverine e se recusa a lutar e a usar suas garras, o que complica a viagem e nos deixa ainda mais curiosos pelo passado.

velho logan presidente

Velho Logan mostra um fim distópico para o Universo Marvel, mas também um enredo pesado a respeito do Wolverine. O que um herói imortal faria, se fosse praticamente o único ainda vivo? Outras narrativas já mostraram os heróis derrotados – como a Era de Ultron e a Era do Apocalipse -, mas nenhuma de forma tão crua e áspera quanto Velho Logan. Eu achava que ver o Capitão América desolado após a derrota para o Ultron havia sido uma cena marcante, mas todo o peso daquela cena parece permear cada página do Velho Logan. Não é uma história do Wolverine ou qualquer herói se reerguendo após o fracasso, é o Wolverine sobrevivendo em um futuro sem absolutamente nenhuma esperança.

Como dito, o mundo é basicamente os EUA dominados pelos super-vilões. Citar qualquer momento específico na estrada seria um pequeno e inofensivo spoiler, mas eu me recuso a estragar a graça. O importante é frisar que, como em toda boa narrativa, o mundo ao redor é tão vivo quanto seus personagens – ou morto, dependendo do caso – e um cenário pode narrar incontáveis histórias por si só. É importante quando Logan revela como foi sua derrota e o que o levou a aposentar suas garras, mas também é importante apenas ver o que restou de certos prédios e certos heróis e até vilões importantes. Itens perdidos, localidades em ruínas e até restos de cadáveres pontuam que uma batalha tão épica quanto sombria foi travada ali e só confirma que não sobrou – quase – ninguém.

Particularmente, não gosto de histórias onde todo mundo se deu mal e tudo é triste demais – tipo aquele curta-metragem dos Power Rangers. Esse tipo de história, na melhor das hipóteses, é uma experiência a ser degustada uma vez e nada mais. Dito isso, que fique registrado: Velho Logan é uma obra-prima! A história é boa e, pior – ou melhor – de tudo, faz todo sentido! É crível que certos personagens surtassem da forma que surtaram e que o mundo apodrecesse como apodreceu. Sem falar no final… Óbvio que eu não vou falar o final… Apenas digo que é extremamente imprevisível! Eu sabia de meia dúzia de spoilers quando li e ainda assim fiquei surpreso. De fato, dentro de toda a premissa, o final foi avassalador no melhor sentido da palavra.

Sendo assim, se você gostou do novo filme do Hugh Jackman, experimente sua versão original em quadrinhos, é tão boa quanto e não tem nada a ver com a versão cinematográfica. E se você não gostou do filme, melhor ainda, experimente sua versão original em quadrinhos, vai limpar a sua mente com uma montanha-russa de violência, tragédia e com o melhor super-herói de todos os tempos.

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Bernardo Stamato
Vencedor do Concurso Cultura "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, professor de Game Design e 3D Fundamental na empresa Seven Game e escritor (http://entrevirtudesevicios.blogspot.com/). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS3 também.

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  • valber patrick

    acabei de ler a Hq e achei fantástica a história, é realmente sensacional.