VIII [Leitor Nerd]

henrique viii

Como o rei da Inglaterra Henrique VIII merece ser lembrado? Como o adolescente carismático e gracioso que um dia foi? Como o jovem Cavaleiro da Luz que proclamou ser quando assumiu o trono? Como o déspota assassino que se provou ser ao longo da sua vida adulta? Ou como o louco decadente dos seus últimos anos? E, mais importante, como foi a sua trajetória desde o seu potencial brilhante até o seu fim abissal e caótico?

Quem escreve é H.M. Castor é uma consumada escritora e historiadora que teve seu primeiro livro publicado aos quatorze anos de idade. Ela estudou história na Universidade de Cambridge e sempre foi fascinada pela história de Henrique VIII. Atualmente, a autora mora com seu marido e duas filhas em Bristol, Inglaterra.

VIII narra a vida de um dos reis mais controversos da história. Desde quando ele era um menino assustado, confuso entre os boatos trazidos pela guerra e pelo tratamento diferenciado que recebia dos parentes, até um homem obeso, aleijado e insano. É difícil acreditar que ele se tornará um cruel tirano nas primeiras páginas – sua juventude indica o clichê do filho caçula injustiçado, que só recebe o amor materno em contraste com a malícia do irmão primogênito e do total desprezo do próprio pai. O leitor que conhece a história sabe que o jogo vira literalmente de ponta-cabeça quando, mesmo contra todas as expectativas, Henrique se torna rei e inclusive casa com seu amor de infância. E o leitor que não conhece a história mal pode esperar para se surpreender com as decisões, com o excesso de vaidade e com a ambição cega do protagonista.

h m castor

Além de apresentar o infame Henrique VIII, o romance também é uma ótima representação da Europa do século XVI. O leitor não ficará perdido entre os nomes em inglês das estradas e cidades, pois a autora só foca naquilo que é importante para a história ou para a ambientação, de modo que você consegue imaginar e compreender o cenário sempre que é necessário. Esses detalhes podem ser percebidos tanto enquanto o protagonista ainda é o príncipe caçula se protegendo da guerra enquanto seu pai confronta seu suposto tio usurpador, quanto em sua fase adulta como rei, administrando a guerra contra a França de acordo com o passar das estações e dos anos. E tão importante quanto a geografia é a política: o livro apresenta com nitidez como as alianças eram feitas e desfeitas, como que as guerras começavam e terminavam e como nobres e sacerdotes influenciavam e eram influenciados pelos caprichos dos reis.

Falando em nobres e sacerdotes, as personalidades que cercavam Henrique VIII são tão expressivas quanto os castelos e as cidades da Inglaterra. A princípio, a dinâmica entre o príncipe caçula e seus criados é harmoniosa e divertida, até que eles se tornam os criados de um rei cheio de vontades e exigências e passam a ser descartados quando os surtos do regente não são atendidos. E novos conselheiros surgem e são descartados. E novos sacerdotes surgem e são descartados. E novas rainhas surgem e são descartadas – essas são toda uma amargura a parte, pois depois de alguns divórcios e até algumas mortes, não dá para não sentir remorso pela nova candidata. Tudo é tão inconstante quanto o próprio temperamento do rei.

VIII é um livro tão trágico quanto real. A autora realmente se dedicou a relatar a vida de um homem com muitos problemas e, infelizmente, com poder absoluto sob toda uma nação, sempre mantendo uma narrativa interessante e saborosa. Pior de tudo, é coerente. Mesmo nos momentos mais inocentes, as cobiças e os anseios permeiam Henrique VIII. Certamente uma leitura indicada tanto para os amantes de história quanto para os amantes de tragédias.

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Bernardo Stamato
Vencedor do Concurso Cultura "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, professor de Game Design e 3D Fundamental na empresa Seven Game e escritor (http://entrevirtudesevicios.blogspot.com/). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS3 também.

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